Porque a missão do Exército deve ser: entrar, por em ordem e, invariavelmente, SAIR?

Polícia não é Exército, apesar de sua matriz institucional se originar dele, não só aqui no Brasil, mas em todo o mundo, assim como os Carabineros do Chile, os Carabenieri da Itália, a Gendarmaria Nacional da França ou a Guarda Nacional Republicana de Portugal, que são polícias militarizadas (gendarmarias).

Exército ao estilo prussiano é máquina de aniquilamento e o oficialato brasileiro guarda resquícios do modo prussiano de vislumbrar a máquina militar.  Mas o distanciamento do calor da guerra sanguinária e a aproximação de operações de manutenção da paz em território de população civil, fez do Exército Brasileiro um exímio estabilizador de vida urbana, elogiado por alguns seguimentos da ONU.

Mas, seus métodos, são admissíveis na estabilização, sua permanência ininterrupta pode ter efeitos de inibição ao surgimento de uma esfera de liberdade plena. Aliás, o Brasil aprendeu a fazer o trabalho de “polícia militar” como tropa de infantaria para controle de populações civis de territórios ocupados, com nada mais nada menos que o U.S. Army, durante a Segunda Guerra Mundial com a Força Expedicionária Brasileira na Itália. Creio que o problema foi ter replicado esse formato norte-americano com as Forças Públicas Estaduais e com as extintas Guardas Civis Estaduais durante a década de 70. E, portanto, tendo o Brasil vivenciado um laboratório similar ao Afeganistão e o Iraque, antes mesmo dos yankees.

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Exército ao estilo do general chinês Sun Tzu é instrumento para ser utilizado sabiamente numa estratégia de domínio e expansão de reinos. Mas Polícia “deveria” ser uma agência humana de proteção e cuidado. Não sendo ainda, admite-se uma polícia de controle e disciplinamento, mas uma polícia que é uma confraria de guerreiros e se predispõe em primeiro lugar a matar e torturar sua própria população e quando não extorqui-la é inaceitável. E esse, infelizmente, é o perfil institucional da nossa maior agência policial: a Polícia Militar. Mesmo que alguns policiais não se sintam assim e ainda defendam bravamente princípios de justiça e democracia, mas a instituição como um todo é sim, assassina, corrupta e corruptora. É sozinha, responsável por 10% das mortes violentas do país, isso é um absurdo, para qualquer padrão por todo o planeta. Estamos falando de uma agência estatal, que devia evitar que isso acontecesse e não ajudar nos números.

Para os pacifistas, como eu, me desculpem ter que alertá-los, para que nossos pobres “coraçãozinhos” não fiquem chocados, mas assim como foi no Haiti (queira o Exército esconder isso ou não), no começo da fase de estabilização ao estilo brasileiro, no silêncio da noite nas comunidades subalternas e empobrecidas, haverá muitas mortes. Muitos criminosos, muitos policiais convertidos ao crime, expulsões a bem da disciplina e alguns resultados colaterais tendo civis inocentes como vítimas letais ou de graves constrangimentos.

Por isso não me oponho ao uso das Forças Armadas, mas alerto para que não deixem que tomem gosto em ficar para sempre. Porque a tropa do Exército e a dos Fuzileiros Navais são a princípio idôneas. Mas muito contato com oportunidades diversas podem corrompê-la, assim como isso ocorreu num processo profundo por década com a Polícia Militar. Lá em cima dos morros, nas favelas, eles vão matar traficantes e as mansões camufladas de barraco, estarão à disposição da tropa, será que terão a firmeza moral de não tornar isso espólio de guerra? Porque a PM e a Polícia Civil não conseguiram evitar, aliás se lambuzuram com isso por anos.

Em momentos solitários os homens terão horas e horas de monotonia e alguns momentos de apreensão, é inevitável que aflorem a necessidade de válvulas de escape. O contato sexual com mulheres das comunidades ocorrerá, assim como ocorreu na Itália com a FEB, como ocorreu no Haiti e como ocorreu com a Military Police do Vietnã. Mas há o risco de assédios mais graves. São tantas varáveis e todas elas comportamentais e culturais. Por exemplo, quem pagava arrego ou suborno aos policiais militares, incluindo coronéis e delegados, não vão ficar satisfeitos até conseguirem corromper alguns entre os militares federais. E tirando pelo caso da falta de controle para com a empresa Taurus e alguns outros incidentes “morais” na Operação Carro Pipa no Nordeste o Exército não é tão incorruptível assim.

Bem, veremos no que isso dará. Algo que já passou da hora de ter sido feito. Mas sendo orquestrado pele governo Temer nos deixa temerosos dos interesses ocultos e eleitoreiros. Espero que a população do Rio e da Baixada Fluminense não confundam a transitória sensação de segurança com solução permanente e elejam novamente candidatos que vendam a “solução” como sua: o que provavelmente farão o Maia pai ou o Maia filho.

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