Podcast #02 | Dois desfechos de um mesmo enredo: suicídio policial e predisposição ao risco laboral

Podcast #01 do Dossiê Suicídio Policial
Dados do Podcast | Duração: 9 min e 58 seg | Publicação: 12 out. 2019
[Link do áudio]

Trata-se de uma breve explanação, na qual você será apresentado a uma ideia preliminar da possibilidade de ver parte da mortalidade policial (que ocorre sobretudo de folga) e o suicídio policial como efeitos-resultados de uma mesma dinâmica complexa, não-linear, multifatorial.

Aborda-se a ideia de conjugação entre o suicídio altruísta e o suicídio comum (“egoísta” ou anômico). Cabe ressaltar que é uma mera proposição, são hipóteses.

Abaixo você tem à disposição notas e referências que embasam minimamente as ideias discutidas, entre elas:

  • Exposição ao risco pela atuação em segurança privada na folga , conhecido como bico ou viração
  • Suicídio (de policiais) dissimulado ou camuflado em acidentes de trânsito
  • A invisibilidade das mortes que ocorrem na folga: confronto na atuação de segurança privada, estando normalmente sozinho; vítima reconhecido como policial; reação à assalto.
  • Bela morte espartana e a visão do poeta Tirteu sobre o ” é belo morrer, caindo entre os combatentes das primeiras filas / um homem valente ao combater por sua terra
  • Porque policiais militares e gendarmes devem ser estudados tanto pelo viés de riscos laborais e saúde do trabalhador da classe policial, assim como veteranos de guerra.
  • Saiba sobre pesquisas que na Itália tratam o policial militarizado em retorno de operações de manutenção de paz como veterano de guerra.

Notas e Referências

[1] DURKHEIM, Émile. O suicídio. São Paulo: Martins Fontes, 2000. Original: Le suicide, 1897. [Link]

[2] Pôster de uma revisão de literatura. Autoria: Alexandre Pértega-Gomes e Eduardo Gonçalves do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar de Faro, Portugal. Título: OS 4 TIPOS DE SUICÍDIO EM DURKHEIM: EGOÍSTA, ALTRUÍSTA, ANÓMICO E FATALISTA. [Link]

[3] Exposição ao risco pela atuação em segurança privada na folga – Coronel Sérgio Bonfanti do Rio Grande do Sul apurou com policiais militares da Brigada Militar, a prática do “bico” tende a levar esses sujeitos ao “cansaço, o estresse, o uso de medicamento para se manter acordado, o pouco tempo para convívio familiar, para o lazer e para atividades físicas, são os apontamentos que mais se destacam”. Cf. BONFANTI, Sérgio Augusto. O “bico” realizado por policiais militares da Capital gaúcha: implicações, fatores intervenientes e consequências, 2009. [Link]

[4] Seguindo o raciocínio de Bonfanti (2009) é possível perceber o envolvimento com a “atividade laboral extra” como parte do engofamento do ego individual pelo ego social tratado por Durkheim (2000/1897). Estando o ego da pessoa do policial identificado como responsável pela proteção social coletiva acima de seus interesses pessoais, ele entrega sua vida em sacrifício. Nessa associação do visto por Bonfanti (2009) na Brigada Militar do RS, vemos policiais se entregando pelo sustento das suas famílias.

[4] Suicídio (de policiais) dissimulado ou camuflado em acidentes de trânsito – Susana Santos traz em sua dissertação de mestrado em Medicina Legal, pela Universidade do Porto, um estudo sobre suicídios no contexto das forças policiais portuguesas: “De referir ainda, que estes números não contabilizam as perdas de efectivos de polícia por motivos dúbios, na maior parte das vezes classificados como acidentes, designadamente acidentes de viação fatais, que na realidade poderão constituir um suicídio intencional, mas camuflado pelo método utilizado”. Cf. Santos, Susana M. Suicídio nas forças policiais: um estudo comparativo na PSP, GNR e PJ. 2007, p. 4. [Link]

[5] Em estudo junto a policiais militares e civis do Rio de Janeiro elaborado por Minayo et. al. (2007), salientou-se que “merece atenção a vitimização dos agentes de segurança em suas folgas, tanto em acidentes de trânsito como por agressões”. Minayo et. al. (2007) ainda lembram “[…] o utro motivo se deve à presença dos policiais, como cidadãos, em cenas de conflitos em bairros, em bares e em transportes quando por via de sua função, acabam se envolvendo. Muitos, também, são vítimas de emboscadas de delinquentes, levando uma grande maioria a esconder seus distintivos profissionais”. Cf. MINAYO, Maria C. S.; SOUZA, EDINILSA R.; CONSTANTINO, Patrícia. Riscos percebidos e vitimização de policiais civis e militares na (in)segurança pública, 2007. [Link]

[6] Esse desencadeamento de níveis progressivos de danos à saúde é apresentado pelo psicólogo Maurivan da Silva, que foi docente na Academia de Polícia Militar do Cabo Branco (PMPB): “É a maneira como essas forças interagem e o embate que é vivido cotidianamente pelo policial em sua atividade-fim, que terminam por gerar o sofrimento psíquico, com possíveis desdobramentos em alcoolismo, depressão e até mesmo em suicídio“. Cf. SILVA, Maurivan B.; VIEIRA, Sarita B. O Processo de Trabalho do Militar Estadual e a Saúde Mental, 2008. [Link]

[7] Bela morte espartana – cf. OLIVEIRA, Luciene L. A Segunda Guerra Messênia e o herói tirteano. Principia, num. 24, Rio de Janeiro: UERJ, 2012. [Link]

“O poeta Tirteu é uma referência no estudo acerca da bela morte, pois é considerado o cantor da bela morte e um porta-voz do ideal espartano: o morrer em favor da terra, assim, o guerreiro oferece sua vida em prol de sua cidade. Não há como negar que a bela morte é como se fosse um critério de bravura e, consequentemente, a coragem é vista como uma lei, uma ordem, sendo, antes de tudo, útil, pois condiciona os espartanos a serem corajosos e vitoriosos, mas, infelizmente, há aqueles que não creem nisso e preferem a fuga” (OLIVEIRA, 2012).

Tirteu diz: “é belo morrer, caindo entre os combatentes das primeiras filas / um homem valente ao combater por sua terra”. (Verso 14, do fragmento 11 W do poema de Tirteu apud Oliveira, 2012)

[8] Mais sobre a bela morte espartana – ” Não havia glória maior do que tombar na linha da frente, morrendo lado a lado com os companheiros: essa, para os espartanos (e para a maioria dos outros gregos) era a “bela morte”. Mas eles só agiam como camicases quando não havia outra escolha. Uma frase registrada pelo historiador grego Tucídides é emblemática. Perguntaram a um espartano capturado se os colegas mortos tinham sido mais valentes que ele. “As flechas seriam muito espertas se conseguissem distinguir os valentes dos covardes”, retrucou o guerreiro. “Es­sa é uma coisa na qual o filme 300 acerta: ele mostra esse humor negro com o qual os espartanos enfrentavam a guerra”, diz Paul Cartledge”. Cf. LOPES, Reinaldo J. Cidade da Grécia: a outra Esparta. SuperInteressante, Editora Abril. 31 out 2016. [Link]: “Ela era mais democrática do que se imagina e tão heróica quanto as lendas contam. Conheça a verdade da cidade mais controversa da Grécia antiga”.

[9] Sobre militares italianos vítimas de contaminação radioativa, ver no site da Associação/Sindicato: Associazione Solidarietà Diritto e Progresso. Sessão: “Vítimas do Dever” [Link]

[10] Sobre a avaliação de policiais militares italianos como veteranos de guerra e sua reabilitação na inserção social, segue uma lista de links relevantes. A ideia é demonstrar que como os Carabinieri são empregados em missões de paz eles são tratados efetivamente como miliares em funções “policiais”. Apesar da comparação proposta com a Polícia Militar Brasileira, prever que ela aja como uma força “estrangeira” em seu próprio território, quase como se estivesse ininterruptamente mobilizada em operação de guerra, acreditamos ser válido entender como as características militares de uma gendarmaria influenciam distintamente da natureza puramente policial em implicações na saúde do profissional. Essa previsão de um emprego ininterrupto de guerra, mesmo que em segurança doméstica, pode ser verificado pelos desdobramentos da intervenção federal-militar no Rio de Janeiro.

[10a] Cf. BARBI, Serena. Conflitti e Traumi di Guerra: Interventi di Riabilitazione sulle Famiglie dei Militari [Link].

[10b] Cf. SALAVADORINI, Ranieri. “La guerra dentro”: Sindrome del ritorno – Così si curano i soldati “distrutti”. La Republica. Publicado em 26 dez. 2010. [Link]

[10c] Cf. CATARINA, Tani. POST TRAUMATIC STRESS DISORDER: NUOVO VECCHIO PROTAGONISTA DELLA GUERRA . Analisi Difesa, ano 15, num. 145, nov. 2013 [Link]

[10d] SARTI, Marco. Lo stress post-traumatico, la malattia silenziosa che colpisce i nostri militari. LinIesta. 02 jun. 2017. [Link]


Sobre o autor

Wagner Soares de Lima é Mestre em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental (UNEB), Especialista em Gestão Pública (UFAL), Graduado em Administração (UFAL) e Segurança Pública (APMSAM/PMAL).  Pós-graduando em Psicologia Junguiana Clínica e graduando em Psicologia. Atualmente é Diretor de Projetos de Segurança e Tecnologia da Superintendência de Segurança Institucional da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no cargo de Tecnólogo de Segurança Pública. Capitão da reserva da Polícia Militar de Alagoas. Membro da International Association of Campus Law Enforcement Administrators (IACLEA). Membro convidado do Grupo de Estudos Estratégicos em Segurança Pública da Polícia Militar de Alagoas.

Anúncios

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.