O erro primaz da estratégia da segurança doméstica da nação brasileira

Debatendo mediante princípios psicossociais profundos, encontramos os desafios históricos e simbólicos que vivenciam os policiais e militares do país

Wagner Soares de Lima

Este texto foi gerado durante um debate em grupo de comunicador instantâneo (mídia social), em 14 out. 2019.

Começamos nossa participação postando a chamada para um podcast aqui do Blog Cidadão-SSP:

Podcast #01 | A simbologia caveira e suas implicações psicossociais na atividade policial
Duração: 15 min e 23 seg | Publicação: 09 ago. 2019
Link do post com referências e comentários

Neste episódio de podcast, com 15 min, avaliamos as implicações do uso desse tipo de simbologia, mediante um suporte na psicanálise e na arqueologia simbólica junguiana, com uso da linguagem mitológica. Por fim, explicamos como uma organização pode (e deve) fazer sua gestão de imagem para estimular o comportamento do consumidor ou de seu público interno. É salutar o uso de tal simbologia? É uma ferramenta, a qual o marketing tem usado no século XX com muita propriedade. A heráldica militar já usava esse instrumento de comunicação não-verbal há muito tempo. Cabe-nos agora usar com sabedoria, ao ponto de entender quando seu uso abusivo é nefasto.

É sempre importante lembrar que críticas conscientes a forma de policiar não refletem críticas automáticas ao necessário vigor da atuação em guerra. O que se pretende com esse tipo de debate é entender que o modus operandi em Segurança Internacional implementada unidirecionalmente por uma potência ocupante ou invasora é diferente daquele que se espera que a própria força de segurança interna dessa mesma potência faça em seu território e com sua própria população.

Com esse tipo de tema e título pode ser que algum guerreiro das forças armadas ou das forças de segurança interna do Brasil, pensem: “Que bosta! Mais um esquerdopata falando mal da polícia”. E no impulso de defender a simbologia que é tão cara para sua identidade profissional, você mesmo sem ouvir o áudio menospreze. E se for questionado: já ouviu? Tem argumento para rebater?

Nesse caso você poderia dizer que, agora que ouviu, achou lógico algumas partes; mas um aspecto ausente no estudo desse áudio não levou em conta é a verdadeira origem desse símbolo no Brasil. O que, porventura, faria toda a diferença. Vejamos a história dita como a fundadora do uso da símbolo da caveira nas forças especiais (de exército):

Faca na Caveira: símbolo da tropa de Comandos do Brasil

[Link]

Segundo o site do Centro de Instrução de Operações Especiais, a “Faca na Caveira” é o símbolo da tropa de Comandos do Brasil. A caveira simboliza a morte, sempre presente nas ações desse tipo; e a faca com lâmina vermelha é o sigilo de uma missão dos Comandos e o sangue derramado pelos combatentes. O fundo verde representa as matas do Brasil; e o negro é a noite escura, momento ideal para a execução de uma Ação de Comandos.

Ao contrário do que possa aparecer, o símbolo, não significa a morte pura e simplesmente, mas sim a vitória da vida sobre a morte. Conta a história que a “Faca na Caveira” se originou nos campos de batalha durante a Segunda Guerra Mundial. Uma equipe de Operações Especiais inglesa, conhecida como “Comandos”, que tinha por símbolo um punhal, após alcançarem um território inimigo, encontraram uma caveira, um dos símbolos utilizados pelos Nazistas. Nisso, um dos combatentes ingleses sacou o punhal e o cravou na parte de cima do crânio. Com esse gesto queria dizer que os Comandos ingleses que representavam a vida, estavam virando o jogo e vencendo a morte, representada pelo regime nazista de Hitler.

A partir daquele momento, o emblema do punhal cravado no crânio passou a ser símbolo das equipes de operações especiais em todo o mundo.”

Nesse caso eu seria compelido a responder:

Reprodução do comportamento de polícia do exército (militar) pela polícia urbana

Então a história fundadora do uso só confirma o que foi dito no áudio, claramente há uma confusão pelo meu interlocutor entre o vigor necessário e tolerável na guerra e a urbanidade desejável no policiamento.

Essa confusão para o brasileiro é aceitável, é normal, já que parte do que a Polícia Militar é hoje é fruto do policiamento de tropas de exército da Segunda Guerra Mundial. Foi na Itália junto com os norteamericanos que se formou o embrião da Polícia do Exército e ela foi utilizada como modelo para a extinção das Guardas Civis estaduais e a formação do corpo com exclusividade de policiamento ostensivo constituído, sobretudo, pelas antigas Forças Públicas.

Fundamentos psicanalíticos arcaicos da defesa e segurança

Qualquer um que seja coerente sabe que coesão social se faz defendendo da ameça externa e protegendo a população interna.

A defesa externa tem natureza psíquica arcaica masculina, remete aos homens adultos que iam à caça e à guerra.

A proteção interna tem fundamentos no comportamento feminino ou masculino dócil, pois eram as mulheres e os homens mais jovens ou muito velhos que cuidavam do controle das tribos internamente.

Militares brasileiros sabem a diferença entre Defesa e Proteção?

E pergunta que fica é: o quanto militares estão aptos ou não para decidir os rumos da polícia interna, da segurança doméstica. Se o militar seja federal ou estadual só consegue pensar na força bruta e usa de artificios simbólicos para justificar isso, ele será empregado como agente executor em momento críticos necessários para impedir rupturas da ordem.

E será “usado” somente nesse momento por incapacidade da sutileza de entender que os jogos políticos continuam a força da guerra, como bem nos ensina Carl von Clausewitz.

Se o militar for realmente um estrategista e compreende a dinâmica ampla do que venha a ser Defesa e Proteção (leia-se Defesa e Segurança); se ele souber moderar entre força e inteligência, então ele estará apto a planejar e conduzir uma visão superior que congregue Diplomacia, Exércitos e Polícia, como nos ensina Foucault.

No texto sobre a adoção do símbolo caveira pelo Exército Brasileiro, eu gostei do seu “não significa a morte pura e simplesmente”, creio que o texto que mais se adequa a isso é a carta resposta de Freud a Einstein, quando o físico questiona o psiquiatra sobre o porque da guerra e como poderíamos acabar com ela. Freud responde que não tem como, ela é inerente ao humano, leia é interessante [Link]

Explicando de forma simples:

  • Aparelhos de Defesa (Nacional) usam a caveira, é preciso para gerar o impulso vigoroso de apelo à morte que no fundo gera vida.
  • Aparelhos de Proteção (Comunitária) NÃO usam a caveira, por que essencialmente entre a comunidade fraterna interna, subtende-se que não há inimigos de primeira linha

Lógico isso é reducionista para fins didáticos e não se aplica nas novas configurações de guerra híbrida ou de ameaças 4.0, no campo real, teremos a mescla entre esses dois princípios de defesa e proteção.

Meu caro leitor ainda poderia dizer:

Que está sendo feita uma generalização, como se toda a Polícia Militar usasse este tipo de símbolo, o que certamente não é verdade. Somente as unidades de Operações Especiais é que usam a caveira.

Se formos ver em proporções é um efetivo extremamente reduzido, seria possível arriscar talvez uma porcentagem que não chega a 1% dos efetivos de qualquer uma das Corporações estaduais.

E ai sim essa tropa é o conceito de defesa externa na área interna, pois isso foi uma característica da formação da nossa marginalidade (extremamente violenta) somada a questão jurídica, pois as Polícias Militares são, pelas nossas Constituições, tropas auxiliares das Forças Armadas.

Assim pode-se dizer que há a necessidade de ter uma tropa para se contrapor a violência criminal, como último recurso, conjugando a determinação legal de estar pronto também para auxiliar as Forças Armadas em uma eventual guerra, formando assim as tropas especiais das Polícia Militares.

Se você assim me respondesse, eu teria que dizer: muito bem, é isso mesmo. Uma pequena fração da polícia precisaria ser assim mesmo.

Hegemonia da mentalidade infante: e as outras armas e especialidades?

A questão não é numérica; é de preponderância no imaginário coletivo, na difusão mental. A generalização problemática não é na minha fala, é da cultura interna de cada uma das 27 Corporações que compelem a maior parte dos integrantes a cultuarem tais símbolos, ainda que efetivamente poucos possam atuar formalmente nesse sentido.

Não nos dizem comandante, enquanto na formação: “olha, você deve escolher uma das armas e ter orgulho dela”. Não! Na PM somos todos da Infantaria. Isso é o despautério da nossa cultura organizacional. Por que depois de formado seja nos CFAPs ou nas Academias, muitos seguirão rumos mais condizentes com a Intendência, a Cavalaria, a Comunicação, a Logística etc.

Nem todos atuam como infantes, mas todos são preparados como tal. Portanto, qualquer um que queira ser o melhor mira seu olhar para a cultura caveira. Não só a caveira, isso são lições de programação “natural” neurolinguistica, mira-se a águia, o cão, o tigre etc.

Ou seja, não faça conta numérica por cabeça da tropa. Tem que sondar os conteúdos que estão em cada cabeça e perguntar você tem admiração ou lhe foi posto que algum modelo de atuação é melhor que outro!?

E se fizermos essa pergunta sabe quem vai responder: a elite da infantaria com táticas de incursão em território inimigo? A maioria esmagadora dos policiais militares, dos guardas municipais, dos vigilantes da segurança privada. E entre os demais policiais de caráter civil e os militares de forças armada uma grande quantidade dirá que são as forças especiais da infantaria ainda que eles mesmos não atuem como tal.

Falta orgulho pela própria arma, ou então, como dizem na PM, pela sua especialidade. Outras que não essas, por exemplo: Policiamento Escolar, Policiamento Comunitário, Patrulha Rural, Ronda Maria da Penha, Policiamento de Trânsito entre outros.

Operações Especiais são altamente importantes. Assim como Patrulhamento Tático Móvel é muito importante nas metrópoles. Mas Bope, Rota, Ciosac e seus similares é como você mesmo diz: apenas uma pequena fração da tropa. Então que seus símbolos sejam de tal forma restritos e não mereçam publicidade demasiada, muito menos se estimule a adesão a eles para com tanta gente.

Sobre a construção histórica das forças luso-brasileiras da manutenção da ordem

Entendo a necessária formação de tropas de incursão ao próprio território de herança portuguesa. Sou descendente, ainda que de linhagem secundária, da casa de Borgonha de Castela e Leão, meus antepassados criaram o conceito europeu de guerra em seu próprio território na reconquista católica da península Ibérica. Portanto está no meu sangue, sei do que estou falando.

O Brasil constituiu instrumentos de guerra contra seu próprio povo porque vocês tem dado continuidade às Cruzadas do front ocidental.

Já passou do tempo de vocês pararem com essa brincadeira de guerra contra sua própria população. Isso tem lhes custado muitas vidas, inclusive de seus próprios guerreiros.

Esses tais intelectuais de esquerda ficaram de mãos atadas para propor reformulações num governo de centro direita que se dizia esquerda. São incapazes de sentir o amor que tenho pela tropa porque enxergam nela inimigos. Eles destacam muito a letalidade policial no país que é de 3,0 mortes por 100 mil hab.

Não entenda minha fala como de um oponente, eu sou um de dentro que está alertando: ou vocês tomam vergonha como homens de bem e consertam esse troço ou muito mais gente vai morrer desnecessariamente.

E isso inclui os próprios guerreiros, enquanto a população geral enfrenta um violência intencional fatal na casa de 27,5 óbitos por 100 mil habitantes ( o que é um surto crítico ) os policiais se submetem a 63,58 mortes por 100 mil policiais.

Enquanto a população brasileira marca uma taxa de suicídio entre 5,5 a 6 vítimas fatais por 100 mil habitantes; as polícias militares e civis estão com 20 profissionais mortos por cada 100 mil do efetivo.

Isso é um massacre, um extermínio.
Os policiais estão tombando como moscas.

Apesar de eu desconfiar das “boas” intenções de revolucionários apatriados. Seus estudos revelam uma questão crucial nesse enredo. Essa tal “marginalidade (extremamente violenta)” que tu diz é tão somente os descendentes de nossos próprios escravos. Vivemos todos os anos uma revolta de Spartacus e não percebemos que sob efígie da águia romana (ou seria da caveira britânica?) crucificamos centenas na estrada que leva à Roma, como a lei ordenou que os generais fizessem!?

Deixa de conversa mole: nossa estratégia de segurança doméstica está equivocada. A gente se acostumou a ter um Quilombo dos Palmares bem no meio de cada metrópole, sobretudo, no Rio de Janeiro e simplesmente gostamos disso. É nossa diversão usar na roupa ou na mente ainda que apenas virtualmente a caveira e ir ao mato caçar negro fujão. Isso é gostoso, tem adrenalina. Isso é uma visão equivocada e ao extremo é sociopatia coletiva.

Não podemos justificar por tanto tempo tudo o que a caveira representa simplesmente porque os “inimigos” são nosso próprio povo. Também sou descendente de casa real de Angola. Admito que temos um fervor guerreiro quase desmedido. Mas a nação brasileira precisa acolher isso para seu próprio bem e não nos fazer de inimigos perpétuos.

Hoje eu sou um mestiço que sabe combinar muito bem os interesses dos meus antepassados. Somos guerreiros e os guerreiros no Brasil estão se matando. Deixou de ser uma simples disputa por espaço vital, passou a ser uma guerra particular e toda nação está a mercê dela. Chega, basta!

Somos, ainda que não tenhamos conflitos declarados, o país que mais mata no mundo, mais mesmo que os países em guerra.


Peço licença para expor um pouco da minha visão espiritual sobre isso:

Não aceitamos mais tanto funeral com o toque fúnebre da corneta e os disparos de festim ou choros da câmera ardente dos velórios. Não aceitamos mais que a caveira, o tigre, o raio, o cão sejam usados como bandeira da morte em nossas favelas ou aglomerados.

Ou vocês escutam esse alerta ou simplesmente as forças sobrenaturais que guardam essa terra terão que permitir uma grande catástrofe natural ou uma invasão estrangeira. Porque vocês são insaciáveis no sangue.

Ensinamento milenar:

Quando o cão que pastoreia prova do sangue das ovelhas, ele se torna pior que o lobo. E deve ser sumariamente sacrificado, junto com lobos que insistem em rondar a aldeia.

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