Rabdomiólise: insuficiência renal causada por desidratação em cursos operacionais

Como evitar que o sonho de terminar um curso operacional não se transforme em uma baixa real

Este artigo tem tripla função: (1) Informar o público em geral, sobretudo, os guerreiros que estão para fazer um curso operacional, (2) os profissionais da saúde (3) e os responsáveis pela coordenação e realização dos cursos operacionais. Portanto, cada trecho do artigo tem a linguagem própria para cada um desses grupos.

Rabdomiólise se caracteriza pelo acúmulo de mioglobina nos rins, levando a efeitos deletérios ao organismo. A mioglobina é uma das proteínas que estão dentro das fibras musculares e participa do processo de contração muscular no transporte de oxigênio.

Quando acontece algum tipo de lesão muscular, elas são liberadas e caem na corrente sanguínea e dessa forma, acabam por se acumular no rim, podendo causar uma insuficiência renal e até mesmo a lesão renal, ambas na condição aguda.

Existem várias causas que podem levar a rabdomiólise: 

  • trauma direto com esmagamento de grandes grupos musculares;
  • fármacos e
  • excesso de atividade física

No entanto, neste texto, vamos nos ater aos casos ocorridos por excesso de atividade física, principalmente, durante os cursos de formação policial e/ou militar.

O excesso de mioglobina pode causar injúria renal aguda normalmente por três causas distintas:

  • primeiro, pelo efeito tóxico direto da mioglobina, no qual a sua porção heme  leva a essa disfunção podendo até causar a necrose tubular aguda;
  • outra causa é que a mioglobina leva ao desequilíbrio dos fatores vasoconstritores e vasodilatadores, no final, levando a vasoconstrição e consequentemente a uma isquemia renal e o órgão acaba morrendo vamos dizer assim e
  • a terceira causa é a obstrução tubular  pelos cilindros formados pela mioglobina. 

Normalmente a pessoa tem como sinais e sintomas a tríade clássica da rabdomiólise: dor, fraqueza muscular e a urina escura. A urina apresenta-se escura pelo excesso de mioglobina.

Análise laboratorial

No exame urina tipo I, pode apresentar como hematúria, porque a fita reagente detecta o grupamento heme, nesse caso ela está detectando a mioglobinúria. É um tipo de prova cruzada. Mas como já sabemos que o paciente está submetido a esforço físico, já devemos suspeitar de que não se trata de elementos do sangue na urina.

Dosagem de CPK,  que é uma enzima que também está presente no músculo e é liberada quando ocorre a lesão da célula muscular, pode ser utilizada como parâmetro para o diagnóstico. É possível dosar CPK e, normalmente, um valor  maior que 1.000 (mil) já inclui como critério diagnóstico de rabdomiólise. Apesar de que alguns autores não consideram mais a dosagem de CPK como parâmetro e sim a lesão do órgão alvo, no caso, o rim.

A função renal pode ser avaliada pela dosagem de creatinina. Quando a creatinina está elevada, maior que 1,5 – 2 mg/dl, podemos caracterizar uma insuficiência renal aguda e, consequentemente, o diagnóstico de rabdomiólise. Dificilmente todos os pacientes irão evoluir a um quadro de necrose tubular aguda, ou seja, lesionar o rim a ponto de não conseguir voltar o que era antes.  A lesão renal está normalmente associada a valores de CPK altos, superiores a 40.000, quanto maior a CPK pior o prognóstico. 

Além disso outras outras complicações podem ocorrer, como a hipercalemia, que é o excesso de potássio no sangue, podendo levar a alterações cardíacas. Por isso é preciso observar com cuidado esses casos de rabdomiólise. 

Tratamento: hidratação

O principal tratamento é a hidratação vigorosa, podendo utilizar, num segundo momento, o Manitol, que é um diurético osmótico, para aumentar mais ainda esse volume urinário e eliminar toda a mioglobina acumulada nos rins.  

A  ideia de levantar esse assunto é para despertar a devida preocupação sobre ele, pois algo que parece simples pode levar a repercussões bastante graves no paciente, no nosso caso,  nos nossos alunos policiais e militares.

Por isso que é importante estabelecer um protocolo rigoroso de hidratação e de acompanhamento desse aluno de perto para evitar que ele entre na insuficiência renal e assim não chegue até os casos extremos, como a necessidade de realizar diálise.

A importância dos cursos versus o limite de cada aluno

Quando os sintomas da rabdomiólise não são considerados, seu agravamento pode levar a morte. Nós sabemos que um dos valores de quem faz esse tipo de curso é oferecer a própria vida se for necessário em prol da proteção da sociedade. Contudo, a ideia é que se isso for necessário, ocorra no combate real e não no treinamento, onde se configuraria um desperdício de talento e vidas humanas.

É preciso entender que cada aluno possui um limite, que depende da compleição física, do passado de histórico de lesão renal ou não e o grau de hidratação prévio.

Então tudo isso irá influenciar e por isso os coordenadores  e instrutores de curso precisam entender. Um protocolo de hidratação adequado e o acompanhamento se fazem necessários. Não basta librar o acesso à água, é preciso estimular mesmo a hidratação, cobrando dos alunos que beba água. Além realizar exames periodicamente: antes, durante e após o curso, avaliando sempre a CPK, assim como a função renal do aluno.

Sabidamente, entendemos que esses tipos de curso são muito importante para a formação dos profissionais das forças de defesa e segurança. Pois se tratam dos cursos de formação para o ingresso do indivíduo na Instituição, como também os cursos de especialização para situações de alto risco, que alguns grupamentos irão enfrentar na vida real.

Por isso precisam estar preparados fisicamente e psicologicamente. Porém, precisamos entender também que nós não somos máquinas, não somos robôs e é aí que entra a questão do arquétipo do guerreiro ou do super herói. Não podemos embarcar na ilusão de que estamos imunes a qualquer tipo de coisa. É importante entender que há um limite, mas se toda instrução for baseada na técnica, no profissionalismo, então não teremos problemas, quanto a esses aspectos relacionados à saúde do policial e do militar.

Antes de concluir, quero dizer que sempre falar desses temas é um sinal de respeito para com os profissionais das forças de segurança. São fatos que até ocorrem com certa frequência, mas justamente o não falar sobre eles, acaba por nos deixando ainda mais vulneráveis sem saber o que fazer. Se falamos sobre isso é para trazer consciência técnica antes que causem  prejuízo aos profissionais levando até mesmo a desfechos fatais, assim como sequelas irreparáveis.

Agradeço o espaço aqui ofertado, obrigada também a quem leu a postagem e fiquem atentos pois pretendo trazer mais outros assuntos tão relevantes sobre a saúde dos policiais e militares.


Sobre a autora

Patricia Soares de Lima

Capitã da Polícia Militar de Alagoas. Concluinte do curso de Medicina (UFAL). Especialista em Políticas e Gestão em Segurança Pública e com MBA em Gerenciamento de Projetos. Pesquisadora do Grupo de Estudos Gênero e Educação Médica – Medicina/UFAL. Membro do Grupo de Estudos Estratégicos em Segurança Pública da Polícia Militar de Alagoas. Atuou em unidades de policiamento especializado, tais como Patrulhamento Tático (BPRp) e Operações Especiais (Bope), assim como possui experiência de campo em Inteligência Policial.

Contatos: pslima02@gmail.com
Currículo: http://lattes.cnpq.br/0388660055301429


Receba o aviso de novas postagens por e-mail:

.

.

Anúncios

6 comentários

  1. Excelente postagem!!! Esse assunto vem deixando de ser um tabu nos cursos operacionais policiais. São comuns as palestras sobre o tema. Falar sobre isso, por si só, já nos leva a uma maior consciência situacional sobre o fato de que a rabidomiólise é grave, pode levar à morte de nossos companheiros, contudo, pode ser mitigada e até mesmo evitada.
    Obrigado!!!

    1. Mauro,

      Obrigado por ter lido e deixado sua opinião.
      Como você disse é um mal que pode ser evitado, portanto, é nosso dever informar para que se possa tomar decisões de forma técnica.
      Vou transmitir sua mensagem à autora.

    2. Agradeço por ter lido! A rabdomiólise realmente é um assunto muito importante e ela só pode ser evitada quando conhecemos como e quando pode acontecer.

  2. Parabéns pela postagem, essa informação deveria ser um dos quesitos obrigatórios em todos os polos polícias militares, do Brasil!!!! Muitos ja morreram em cursos operacionais ( nessa questão da rabidomiólise) por falta de informação por conta da privação de beber água, ou saíram do curso com problemas renais…que Deus proteja nossos militares!!!! Táticooo#PMPA#

    1. Willhison,
      Agradecemos a parabenização. Essa é uma das missões do CidadãoSSP informar para trazer consciência para que Segurança Pública seja feita de forma profissional e ética. Vou transmitir sua mensagem para a capitã Patricia Lima de Alagoas, em breve ela mesma vai te responder.

    2. Obrigada por ter lido!! Com o conhecimento ao nosso lado a tendência é sempre evoluir! Abraços a todos companheiros do Pará!!

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.