Desmistificando a insolação por esforço físico, não precisa está associado à temperatura ambiente e pode levar à morte

Vamos falar sobre outra patologia ligada ao esforço físico extenuante, que está extremamente associado aos treinamentos militares, que é a Insolação.

Este artigo tem tripla função: (1) Informar o público em geral, sobretudo, os guerreiros que estão para fazer um curso operacional, (2) os profissionais da saúde (3) e os responsáveis pela coordenação e realização dos cursos operacionais. Portanto, cada trecho do artigo tem a linguagem própria para cada um desses grupos.

Em postagem anterior, falei sobre a rabdomiólise, que é a insuficiência renal causada por desidratação. Trata-se de uma série, e estou preparando outros breves estudos que podem fazer a diferença entre ficar pelo caminho, concluir o curso operacional tão almejado e até mesmo só voltar para casa num funeral militar. Por isso fique atento e sobre a insolação a primeira coisa que deve saber: não está necessariamente relacionada com o sol ou com ambiente quente.

Entendendo a dinâmica da insolação

O nosso corpo necessita manter a temperatura central próxima de 37ºC, para conservação das funções metabólicas. Portanto, quando a temperatura corporal aumenta o nosso organismo tenta reduzi-la através de processos que levam a vasodilatação dos capilares de nossa pele, realizando assim uma transferência de energia para o exterior e a produção de suor, que evapora, diminuindo a temperatura ao nível da pele.

A insolação acontece quando o nosso corpo não consegue mais realizar essa termorregulação e o acúmulo de calor excede a dissipação de calor.

  • A insolação pode ser causada pela exposição ambiental ao calor, denominada de Insolação clássica
  • ou durante o esforço físico intenso, denominada de Insolação por esforço.

A insolação clássica acomete mais os idosos, crianças pré púberes e lactentes que possuem certa dificuldade de ajustar fisiologicamente a temperatura corporal e são exposta ao calor excessivo.  O nosso foco é a insolação por esforço que está intimamente ligada as atividades físicas extenuantes, que acomete principalmente atletas, trabalhadores rurais e militares.

Insolação por esforço físico

A Insolação por esforço pode ocorrer mesmo naqueles indivíduos que já estiveram expostos a atividades semelhantes e não tiveram nenhuma intercorrência. E ela pode ocorrer dentro da 1ª hora de atividade mesmo sem exposição a altas temperaturas ambientais, ou seja, mesmo que não seja em baixo do sol escaldante.

A temperatura corporal é elevada pelo esforço físico e não necessariamente pela exposição a uma fonte de calor.  Como fatores de riscos foram apontados:

  • supermotivação por pares e treinadores e
  • o uso de estimulantes e anfetaminas.

Mas o verdadeiro problema da insolação é o seu desconhecimento, que prejudica o seu diagnóstico. Estudos apontam para um aumento constante na morbidade e mortalidade por insolação por esforço entre os atletas de futebol americano e militares do exército nos Estados Unidos, durante a última década.

A insolação causa um efeito citotóxico que leva a uma resposta inflamatória sistêmica, a famosa SIRS (da sigla em inglês: Systemic Inflammatory Response Syndrome ), que é semelhante a causada nos casos de SEPSE, popularmente denominada de infecção generalizada.  E essa SIRS na insolação causa a uma disfunção em diversos órgão predominando a encefalopatia.

Diagnóstico, sinais e sintomas

O diagnóstico é iminentemente clínico, não necessitando de exames laboratoriais específicos.  

A história de hipertermia com anormalidades neurológicas, como confusão, delírio, tontura, fraqueza, agressividade, fala arrastada, náuseas, vômitos e até convulsões associado a histórica clínica de esforço físico direciona o diagnóstico de insolação. 

Outros sintomas também podem estar associados como:

  • taquicardia (coração acelerado),
  • taquipnéia (respiração acelerada),
  • hipotensão (pressão arterial baixa) e
  • profusa sudorese e pele molhada

O distúrbio se divide em três fases. A primeira é a fase aguda, no qual ocorrem os sintomas neurológicos, a segunda é a fase que ocorre às alterações enzimáticas e hematológicas (entras as 24 e 48 horas ao o evento) e a ultima fase é a renal-hepática, se os sintomas persistirem após 96 horas. Temperaturas maiores que 40,5º C podem ser extremamente críticas e se perdurarem podem levar as complicações como alterações sustentadas no nível de consciência, síndrome do desconforto respiratório agudo, insuficiência renal, cardíaca e hepática aguda. A rabdomiólise, apesar de não ser obrigatória, normalmente está sempre associada à insolação por esforço.

A principal meta do tratamento é o resfriamento, com alvo de 39º C. Nos casos de insolação por esforço a taxa de resfriamento pode ser mais rápida em média 0,10º C por minuto. Que pode ser realizado com imersão em água fria. E normalmente esse resfriamento é eficaz para reverter à disfunção dos órgãos.A prevenção como sempre é a melhor solução.

Concluindo

Portanto, para evitar esse tipo de complicação nos treinamentos militares é importante que a instituição adote medidas como climatização de ambientes, conciliar o nível da atividade física com o grau de aptidão física dos militares, evitar horários do dia que são mais quentes para realizar as práticas, remover os equipamentos e roupas que podem servir como barreira contra o vapor e possam interferir na evaporação do suor, como os coletes e gandolas.

E como igualmente no caso da rabdomiólise, manter um regime de hidratação suficiente e programado durante os períodos de atividade e descanso. Além, de sempre estar atento aos militares que apresentarem qualquer sinal de insolação, devendo afastá-los de imediato da atividade física e encaminhá-los ao atendimento médico adequado.


Receba o aviso de novas postagens por e-mail:

.

Este artigo faz parte da série sobre Saúde Policial e Militar em cursos operacionais. Leia os demais artigos:

Sobre a autora

Patricia Soares de Lima

Capitã da Polícia Militar de Alagoas. Concluinte do curso de Medicina (UFAL). Especialista em Políticas e Gestão em Segurança Pública e com MBA em Gerenciamento de Projetos. Pesquisadora do Grupo de Estudos Gênero e Educação Médica – Medicina/UFAL. Membro do Grupo de Estudos Estratégicos em Segurança Pública da Polícia Militar de Alagoas. Atuou em unidades de policiamento especializado, tais como Patrulhamento Tático (BPRp) e Operações Especiais (Bope), assim como possui experiência de campo em Inteligência Policial.

Contatos: pslima02@gmail.com
Currículo: http://lattes.cnpq.br/0388660055301429


.

Veja também…

.

Um comentário

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.