A síndrome do herói frustrado e os movimentos grevistas de policiais

Por que profissionais da segurança, seja ela pública, privada ou institucional operam por uma lógica mental diferenciada? Do que se trata o emergente “sindicalismo” policial militar e como ele extravasou para a política?

Continuemos com as provocações, em forma de questionamentos: O que leva a um senador da República lançar uma restroescavadeira em direção a trabalhadores em greve? E se esses trabalhadores forem policiais? Um detalhe: policiais de natureza militar. Como assim trabalhadores!? E militar pode fazer greve? Mas eram um grupo específico de um efetivo muito maior, que se amotinaram e entre eles houve quem impusesse à população um terrorismo social [1].

Mas, ainda que a paralisação fosse ilegal [2] e que alguns meios utilizados pelos “grevistas” fossem imorais e criminosos, pode um agente político do legislativo intimar o fim do movimento e conduzir um veículo pesado contra as esposas e filhos desses policiais? E os policiais, ainda que conseguissem expor justa causa, teriam o direito de paralisar as atividades de uma sociedade, intimidar pessoas e concorrer em atos similares ao de criminosos?

Bem, meu nome é Wagner e sou capitão da reserva da Polícia Militar, mas não sou o Wagner que liderou o movimento de paralisação dos policiais militares cearenses na virada do ano de  2011 para 2012, na verdade, sou oriundo da Polícia Militar de Alagoas e não vou me deter na análise circunstancial do episódio que resultou num senador alvejado por policiais militares de seu próprio Estado. Vamos abordar como é possível chegar a esse tipo de situação. Aliás, cabe ressaltar, que esse enredo de alguma forma é um desdobramento tardio das disputas entre aquela gestão de Cid Gomes, ainda como governador, e as lideranças policiais. E um pano de fundo de forte influência parece está a corrida pela prefeitura de Fortaleza em 2020 [3].

[1] MARREIRO, Flávia. Cid Gomes desafia policiais grevistas e é baleado em Sobral, no Ceará. [On-line] El País. Publicado em 19 fev. 2020. [Link]

[2] MOURA, Rafael M. Ministros do STF consideram ilegal greve de PMs no Ceará. Exame e Estadão. Publicado em 20 fev. 2020. [Link 1] [Link 2]

[3] BONFIM, Cristiane. Entenda a crise na segurança pública no Ceará. [On-line] UOL Notícias. Publicado em 20 fev. 2020. [Link]

Não sou jornalista, por isso não vou me debruçar no caso atual. Hoje, vou me apresentar como pesquisador e terapeuta organizacional: o meu foco recairá sobre a epidemiologia de modelos mentais coletivos que causam desfuncionalidades institucionais, ou seja, quando uma instituição está doente e sem se perceberem os integrantes, sobretudo, na condição de trabalhadores, são induzidos a atitudes e comportamentos que são prejudiciais a seus familiares, à sociedade e si mesmos.

Este texto terá duas funções: 1) Permitir a você, que tem contato com algum tipo de efetivo da área de segurança: privada, pública ou institucional, poder entender porque esses sujeitos operam com outra lógica mental. 2) E sensibilizar aos próprios profissionais da área de segurança, sobretudo, os policiais militares sobre os impactos da “síndrome do herói frustrado” em seu estilo de vida e em suas relações sociais e afetivas.

Portanto, este texto não se dirige ao público em geral, seus alvos são: os gestores civis com ascendência sobre contingentes de segurança e aqueles que querem ter a compreensão sobre o fenômeno do sindicalismo policial militar emergente e sua rápida ascensão ao campo político. Se não a compreensão completa, ao menos, alguns pressupostos preliminares.

Um pouco sobre ciência política, psicologia e sociologia das atividades de segurança

O Estado se utiliza dos policiais em um regime pelo qual pode obrigá-los a trabalhar usando instrumentos de disciplina. Boa parte dos direitos comuns ao trabalhador são negados aos policiais. Quando estruturados sob a organização militar, coisas como hora extra, adicional noturno, fundo de garantia, entre outros benefícios lhes são vetados.

Ou seja, os governos se aproveitam de certos instrumentos “legais” para ter uma mão de obra mais barata. Ao passo, que ao somarem os recursos gastos, principalmente em salários, eles não percebem esse barateamento, acham inconcebível ter que gastar mais com essa área. O fato não está em si, que profissionais de segurança (da linha operacional) ganhem tão bem assim, é que custa muito caro manter uma população desigual controlada e “pacificada”. E, portanto, pagar bem as carreiras de Estado com status mais elevado, como juízes e promotores e outros, não é tão oneroso, mas equiparar esse nível de remuneração a cada um dos “vigias” da sociedade é impraticável.

Umas das questões aí envolvidas é que dói aos policiais de boa índole admitirem que são apenas isso, eles se veem como heróis e protetores fiéis. Eles sabem que boa parte do barril de pólvora das grandes metrópoles e suas periferias é segurado a ferro e fogo, ou melhor, sangue e suor deles. Quando falamos de profissionais de outros setores, como a segurança privada, é difícil engolir, mas o “guardinha” que nem lugar digno para fazer refeição tem, é quem faz toda a gerência do espaço controlado na ausência dos demais gestores. Isso não é diferente para policiais do Interior em feriados e finais de semana, quando outros agentes de pretensa maior relevância social simplesmente estão folgando.

Por isso os policiais formam uma coesão quase de fraternidade, porque reconhecem um no outro as dores da luta diária. Essa coesão, às vezes, ultrapassa os limites da razoabilidade e faz com que os interesses dos policiais não sejam os mesmos da população. Para quem conhece a estrutura da segurança por dentro, era previsível que não fossem compatíveis: os interesses da tropa com os da classe política dirigente. Diferentemente do que parece a alguns formadores de opinião, as tropas não são “lacaios” dos governos ou “vendidos” do sistema. Nesse ponto, eles seguem cumprindo ordens, gostando até certo ponto do que fazem, sem se darem conta de que possam está sendo manipulados.

Esses títulos de “submetidos” ou “capachos” pode, em parte, serem atribuídos a algumas pessoas e de uma forma geral aos sistemas de comando das polícias que, em suma, não representam os interesses da tropa, estão numa posição dúbia mais próxima do governo. Por isso são incapazes de “segurarem” as coisas sem o uso da disciplina sumária. Nos momentos críticos, cabem às lideranças com poder magnético do carisma conduzirem as coisas até que tropecem em alguma situação e sejam desmascarados como traidores da causa. Essas são dinâmicas comuns a qualquer movimento sindical ou parassindical (feito por associações e por outras formas classistas).

A população minimamente esclarecida tem se revoltado com a posição dos policiais em exigir melhores salários, tendo a percepção falsa ou verdadeira de que os policiais não se esforçam muito no dia a dia, assim como muitos populares relatam serem molestados por policiais corruptos. Sobre a sensação de que profissionais de segurança não fazem nada, se dá pelo modelo até então concebido da atividade, que exige um treinamento especializado, para ficar muito tempo apenas em pronto emprego, vindo realmente a agir somente quando algo ocorre. Para mudar essa situação, seria necessário romper o paradigma de reatividade e buscar a proatividade e, se assim o fizer, o perfil do profissional teria que mudar. E mais uma vez, recairíamos na questão dos custos.

Parece que o sistema de coisas, da forma como estão, compele-nos a falar mal sobre a truculência dos efetivos de segurança, mas no final das contas preferimos esse profissional assim mesmo: menos escolarizado e apaixonado pela ilusão de “servir e proteger”, porque diferentemente disso ele custaria muito mais. Talvez, as agências policiais estejam sofrendo paulatinamente com o ingresso de profissionais mais escolarizados e mais informados tornando insustentável as artimanhas do uso e controle de tropas. Esse tipo de revolta era típica do oficial de baixa patente, o que gerou muitos movimentos “tenentistas” no país. Hoje, o candidato que se submete a um concurso acirrado para soldado tem as mesmas qualificações desses antigos tenentes da história brasileira. Ou seja, a massa crítica dentro das tropas cresceu vertiginosamente.

Ou seja, para comandantes e políticos há uma peste se espalhando pelas tropas policiais: cada vez mais gente participando do sistema, entendendo como ele funciona e exigindo mais dinheiro e prerrogativas para não subverter a ordem constituída e manter o sistema de controle populacional. Outro ponto que salta aos olhos, é o fato de que as corporações policiais são empregadas para o controle e dissolução de movimentos reivindicatórios de outras classes, de tal forma a se portarem como algozes, às vezes, excedendo no uso da força, o que é negado pelos agentes de mando, mas que bem sabem se utilizar do benefício social de ter a quem possam culpar e, ainda sim, ter o principio de descontrole social resolvido.

Quando os protetores se revoltam

Em relação a protetores sempre podemos fazer a pergunta: são anjos ou demônios? Se refletirmos sobre o mito dessas figuras do imaginário popular e de tradições religiosas, chegaremos a seguinte conclusão: as duas categorias são, em essência, da mesma natureza, os demônios são os anjos após uma rebelião celeste. Portanto, ao falarmos de profissionais de controle social, os tais protetores, quando esses se revoltam é possível que a máscara, que escondia sua verdadeira natureza de algozes, caia. Pelo que já explicamos, se você não os entender como algozes (eu mesmo não os vejo assim), então você verá a real natureza deles revelada na sua frente: escravos-guerreiros contratados para vigiar escravos-operários, ou seriam: eleitores [4].

Há em curso um dilema, um tanto irreconciliável, queremos um determinado tipo de polícia para defender nossa frágil democracia. Mas se cogitarmos em entregar aos policiais os mesmos direitos de exercício pleno da democracia corremos o risco de nos tornarmos reféns deles. Se você só está percebendo isso agora, desculpe-me, mas já é tarde, os policiais brasileiros já entenderam isso desde 2013, numa progressiva luta que se arrastou desde 1997. E eles não vão esperar que a classe política ou a sociedade civil lhes conceda migalhas desses direitos, eles vão as arrancar a força, como já estão fazendo. Guerreiros podem até lutar de forma alienada em batalhas apenas pela adrenalina, mas uma coisa que eles não perdoam é o que eles chamam de “gente fraca” e, justamente, o que eles pensam de nossos políticos tradicionais e nossa classe pensante, inclusive de formação jurídica, são para os policiais tudo gente fraca [4].

[4] Esse trecho tem combinado ideias retiradas dos seguintes textos:

a) ALMEIDA, J. R. Identidade Militar e Resistência: Soldados em Greve. Interações, v. 2, n. 2, p. 49-64, 2011. [Link]

b) DE LIMA, Wagner S. A natureza da Polícia Militar: história e ecologia. Dissertação (Mestrado em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental). Juazeiro: Universidade do Estado da Bahia, 2017. [Link]

c) ROCHA, Guilherme D. Quis custo diet ipsos custodes? Quando entram em greve aqueles que as devem coibir: linhas introdutórias sobre a “greve branca” da polícia militar do espírito santo. Anais do Seminário de Ciências Sociais PGCS-UFES – Vol. 2, 2017. [Link]

[5] O trecho a seguir tem contribuição de:
a) “300” [Audiovisual], filme longa metragem, produção norteameticana, 2006, Diretor: Zack Snyder. [Link 1] [Link 2]

b) FOUCAULT, Michel. Seguranca, território, população: curso dado no Collège de France (1977-1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008.

c) CLAUSEWITZ, Carl P. G. von. Da Guerra. Edição em língua portuguesa disponível como texto didático da Escola de Guerra Naval da Marinha do Brasil. Título original em língua alemã: “Vom Kriege”, 1832. [Link]

No filme 300 de Esparta, perceba esse tipo de situação na justificativa da tropa do rei Leônidas para burlar as ordens dos políticos civis em não entrar na guerra. Eles arrumam um jeito de se rebelarem para provar que são mais fortes e mais importantes na defesa dos interesses da cidade-Estado, mais que os políticos “não-guerreiros”. Espero que você entenda, quando foram desprezados e rechaçados como coisa de menor importância por governos do passado, ou como gente incômoda e troglodita, simplesmente os policiais levaram a cabo os ensinamentos de Carl von Clausewitz e de Michel Foucault, fizeram da política a continuação do que eles sabem fazer de melhor: guerra [5].

Tropa que é tropa de verdade, não atura responder a quem eles identificam como “almofadinhas” ou o que eles chamam de gente fraca. Dói na alma deles ver um comandante, liderança ou secretário “se aliar” aos “inimigos”. E esse repúdio é tão virulento que pode se tornar cegueira ao ponto de os levarem a cometer suicídio moral (e ou social). Simplesmente porque isso é um código de honra que só eles podem entender. Líderes e figuras individuais podem ter amor por cargo, dinheiro e status, mas quando falamos do grupo de guerreiros enfurecidos, eles costumam pensar: “foda-se, vou me arrombar, mas vou levar todo mundo junto”.

Outra nuance um pouco mais aterradora, é quando policiais ou qualquer outra forma de “guerreiros” perdem o vínculo simbólico e afetivo com uma causa maior e passam a visar apenas o ganho objetivo, eles incorporam um senso de mercenários. Senso esse que é capaz de guiá-los a ações que beiram o terrorismo, pois deixam de respeitar as bases da legalidade e da urbanidade.

Algo assim se assemelha à revolta de escravos guerreiros liderados pelo ex-militar e gladiador Spartacus, na Antiga Roma. Quem assistiu ao filme ou a série [5] sabe que esse tipo de gente vive bem, quando ali confinado servindo para os espetáculos, mas uma vez que cheguem ao clima de revolta, eles só costumam parar sob o peso de fortes represálias. Na verdade, é o seguinte: o mesmo “sangue nos solhos” que se exige deles para que sejam capazes de resolver os problemas mais obscuros da sociedade é a mesma qualidade, ou seria um defeito, que eles empregam quando a luta é por suas próprias causas.

O sindicalismo tão aclamado como instrumento de força contra a opressão de patrões e outros tipos de donos do poder, ao ser capturado como ferramenta e estilo de vida de qualquer tipo de classe “guerreira”, torna-se um absurdo mecanismo de guerrilha social. O sindicalismo “guerreiro” é conhecido entre policiais de natureza civil, guardas municipais e vigilantes da segurança privada; porém, entre os militares, isso gera uma ferida irreconciliável com a estrutura de organização dos mesmos. Precisamos entender que aquilo que é contido e represado, quando é liberado e se solta, vem com toda a força. Esse é o caso da dinâmica “grevista” dos militares. É crítico perceber que ao por na cronologia dos fatos, nenhum aumento ou atualização salarial dos policiais militares surge em meio a negociações “pacíficas”. Podemos achar ruim a forma como eles reivindicam, mas parece que apenas são ouvidos, quando dão dor de cabeça.

Policiais são efetivos armados detentores de prerrogativas com as quais são autorizados a dar cabo de situações que mais nenhuma classe pode ou consegue resolver (a não ser militares das forças armadas, que as resolvem de outro jeito). Por isso, o uso dessas mesmas prerrogativas costumam ser sumariamente suspensas, porque quando os policiais se revoltam (ainda que por justa causa) tornam-se uma ameaça direta para a ordem social.

O sociólogo francês Dominique Monjardet traz algumas reflexões sobre esse momento e alguns fatores que estabilizam o contexto anterior à deflagração da crise. Primeiro ponto que ele nos alerta, é que a ameaça vinda dos próprios protetores é tão terrível que defender-se da dependência a eles, justifica não ter um único corpo policial, ainda que isso comprometa a eficiência do serviço no dia a dia. Sempre é bom, na hora de crise, saber que se aquela agência policial se rebelou, uma outra instituição de força, tão bem equipada e igualmente armada irá lhe proteger e até mesmo aproveitar para mostrar o quanto ela também é importante.

Monjardet também nos ensina que há três forças normalmente divergentes e ocasionalmente  convergente em pares: os interesses corporativos dos policiais, os interesses políticos dos governantes e os interesses da sociedade como um todo. É uma triste ilusão agir, pensando que esses interesses são plenamente correspondentes. Quando dois deles se aliam é para desbancar uma inconveniente demanda do terceiro vetor. No caso de greves policiais, os interesses dos governantes e da população ficam alinhados à base do temor e do medo, ao ponto de legitimar atitudes repressivas contra o corpo policial, que tantas vezes agiu como repressor da população. O que o sindicalismo policial emergente está fazendo é subvertendo um esquema desse tripé, tornando as próprias lideranças policiais em governantes [7].

[6] “Spartacus: Sangue e Areia” [Audiovisual] Série de TV, produção norteamericana / neozelandesa, 2010. [Link 1] [Link 2]

[7] MONJARDET, Dominique. O que faz a polícia? São Paulo: Edusp, 2003. [Link]

[8] MARQ, Aurélien. Crise de l’autorité, un péril inquiétant: Violences policières: vers la rupture? [Crise de autoridade, um perigo preocupante violência policial: rumo à ruptura?] Publicado em 22 jan. 2020. [Link]

[9] Bouscarel, Benoît. Police: la crise de confiance? Publicado em 31 jul. 2019. [Link]

[10] Charrie, Pascal. La crise des gilets jaunes pèse sur le moral de la police. La Croix. Publicado em 27 abr. 2019. [Link]

[11] L’Express . “Marche de la colère”: les causes du malaise policier. [“Marcha da raiva”: as causas do desconforto policial]. Publicado em 02 out. 2019. [Link]


Falando em França, cabe dizer as forças da ordem, sobretudo, a Polícia Nacional (de natureza civil) tiveram a imagem bastante arranhada, o que gerou uma crise de confiança nas polícias francesas. Os dilemas se sucederam durante todo o ano de 2019, entre suicídios de policiais e denúncias de violência policial. A tropa foi empegada ininterruptamente para dissuadir as manifestações contra o governo. A sede da polícia foi alvo de um ataque interno, manifestantes saíram às ruas para dizer que o melhor que os policiais podiam fazer eram se matar mesmo. Até que em outubro, as centrais sindicais dos policiais organizaram uma “marcha da raiva”, para exprimir o quanto eles estavam saturados [8, 9, 10, 11]. Ainda, em 2019 outros eventos mostraram o quanto efetivos policiais podem ser submetidos à pressão, se rebelarem ou influírem decisivamente no destino político de uma sociedade, como ocorreu no Chile, na Bolívia e em Hong Kong.

A síndrome do herói frustrado e as feridas de 1997

[12] Este trecho tem contribuições de diversos outros obras, a saber:

a) AMARAL, Pedro. PMs cruzam os braços provocando crises nos estados desde a década de 90. [On-line] O Globo. Publicado 17 fev. 2017. [Link]

b) ALMEIDA, Juniele R. Identidade Militar e Resistência: Soldados em Greve. Interações, v. 2, n. 2, p. 49-64, 2011. [Link]

c) ___. Tropas em protesto: o ciclo de movimentos reivindicatórios dos policiais militares brasileiros no ano de 1997. Tese (Doutorado – História Social). São Paulo: USP, 2010. [Link]

d) Woloszyn, André L. Análise – A Greve nas Polícias Militares: Evolução e Perspectivas. [On-line] DefesaNet. Publicado em 10 jan. 2012. [Link]

A Polícia Militar é formada em sua maior parte por trabalhadores que são psiquicamente seduzidos pelo simbolismo da força e um número razoável pelo mito do herói e por uma ilusão de justiça-vingadora. Eles ficam perplexos depois de alguns anos de serviço, quando descobrem que, na verdade, eles são usados como controladores da sociedade e não passam de mais uma classe enganada pelo sistema político-econômico. É muito delicado quando o cão de guarda ataca jurando que está fazendo o certo. É mais difícil de convencê-los que “talvez” estejam do lado errado da disputa político-social. Ou que mais realisticamente, não há um lado “errado”, eles simplesmente gostam de luta e guerra e quem pode pagá-los por isso o faz para que coloquem a sociedade “nos eixos”.

Infelizmente quem os devia entender como seres humanos e trabalhadores acaba por criminalizá-los e rejeitá-los. Por isso a ala progressista não tem tino suficiente para lidar com eles. Eles acabam encontrando um falso abrigo no discurso reacionário. A esquerda sabe chegar ao poder, mas não sabe lidar com “guerreiros”, porque os vê como algozes e não sabe lhes nutrir com o capital simbólico de que carecem. Depois de 1997, muitos policiais “grevistas” fizeram carreira política em meio a partidos de caráter trabalhistas e se aliaram a centrais sindicais. Em pouco tempo, a fidelidade ao partido os separou da base eleitoral que os sustentava: os militares e profissionais de segurança.

Esta geração atual de policiais-políticos não vai cometer o mesmo erro, isso quer dizer que agora teremos disputas acaloradas entre o ideal guerreiro e a esquerda, sabem porquê? Ambos são guerreiros e ambos têm predisposição para a política do quanto pior, melhor. A política miliciana não é a tradicional direita liberal, é outra coisa. Uma coisa é quando o Senado Romano interdita o Imperador e confabula um golpe branco, outra coisa é quando a Guarda Pretoriana assassina o Imperador em meio à calada da noite. O que estamos vendo é outra terceira situação, é quando ex-comandantes da Guarda Pretoriana ou gladiadores conseguem acesso a se tornam Tribunos da Plebe.

Considerações Finais

Minha questão é centrada na saúde mental dos policiais e o no bem-estar deles e de suas famílias. Se eles estiverem bem, eles desempenharão suas atividades com menor dano próprio e à sociedade. Apesar de que é próprio ao serviço de segurança, tal como o de defesa, é inevitável algum nível de efeitos colaterais gerados pelas ações de força.

Efeito social e político

Um risco é certo: se os “guerreiros” continuarem a tomar consciência de como o jogo funciona: 1) ou eles tomam o poder, tornando o Estado uma instância paramilitar, num processo de “milicialização” do poder, algo que não é novo nem no Brasil, nem em Portugal, nem em Angola, Moçambique ou Nigéria (que são juntos, o berço de nossa herança político-guerreira). 2) Ou eles se afastam das formas perniciosas de controle populacional, a) forçando o sistema a fissuras internas ou b) a encontrar substitutos que se prestem ao papel de controladores sociais.

Aos que escolherem as vias de alçar eles mesmos a novos donos do poder, espero sinceramente, que possam abrir mão de parte das vantagens escusas para dar assistência àqueles que lhes concederam os votos.

Saúde e bem-estar dos profissionais de segurança

Aos que escolherem viver melhor e longe dessa pressão, caberia encontrar alternativas de vivenciar a profissão de outras formas ou até mesmo de sair dela (ou de se preparar para a aposentadoria com a mente voltada para outros projetos de vida).

É preciso pontuar muito bem isto, os policiais já convivem, por vezes escapando temporariamente, com o clima de guerra, da guerra diária contra assédio moral e os dessabores da profissão. Além disso, adicionar ao fardo cotidiano a luta classista não é para todos. Não são todos policiais e profissionais de segurança que concordam com meios abusivos de chantagem social, mas eles estão cansados. Cansados da lida, cansados de serem enganados [X].

Portanto, diante de um quadro desse, mesmo o policial mais moderado, mais sensato, pode até não participar ativamente de atos de desordem, mas vai em seu íntimo apoiar, ao menos, não atrapalhando que o faça. Mas temos que convir que alguns tem esse instinto natural de serem “briguentos” e combativos. A atividade policial tem nas relações do dia a dia, na interação cara a cara, um sentimento de reciprocidade social, que lhe concede a sensação do dever cumprido, isso de alguma forma “paga” o sacrifício. Já na política, há um clima de luta pela luta, de massacrar o oponente. Não que alguns policiais já não apliquem isso no serviço de rua, mas esse padrão comportamental não é apreciado por todos, nem é sustentável por muito tempo.

Como conviver com e gerir grupos de “guerreiros”?

Aos gestores civis quer seja de órgãos públicos, de municípios, de Estados ou da esfera federal o que posso dizer é que essa “galerinha” não são pessoas do “mal”, são uma turma “barra pesada” da qual você vai ter que engolir pela necessidade da prestação do serviço de segurança, porém conhecendo melhor seu funcionamento interno, talvez possam ir para a mesa de negociação melhor preparados para o diálogo. Se você tem nas mãos uma guarda municipal ou um contrato com empresa de segurança privada, precisa entender que a lógica de funcionamento da política ou do setor específico do seu órgão ou empresa, não é o objetivo de vida dos “guerreiros”, você quer paz e todo mundo adaptado em suas funções sem lhe dar trabalho ou dor de cabeça.

Já eles foram forjados pelo treinamento, pelas paixões cultivadas na infância e, quem sabe, até mesmo por predisposição genética e de histórico familiar a irem para cima dos problemas, enquanto todos correm do perigo, eles vão ao encontro dele. Por isso eles são indispensáveis, por isso eles são úteis. O que ocorre é que sujeitos espertos entre eles chegam ao sindicalismo policial compreendendo os dois mundos, o da gestão e política e o da mentalidade guerreira. Como você mero gestor não conhece a mentalidade guerreira tende a ver o seu tempo gasto com as questões próprias deles, assim como terá que gastar mais recursos para suprir as necessidades das suas lideranças, que parecem ser os únicos capazes de acalmá-los.

[x] FACUNDO, Matheus. Reajuste salarial dos policiais cearenses gera discussão entre governo e oposição na Assembleia. [On-line] O Povo online. Publicado em 04 fev. 2020. [Link]

[*] Para quem quer entender melhor toda a linha do tempo relacionada aos conflitos entre movimentos reivindicatórios de policiais militares e o governo do Ceará, recomendo:

a) CAVALCANTE, Igor; FIRMO, Érico. Seis anos da greve da PM no Ceará. [On-line] O POVO online. [Link]

b) DUTRA, Giselle. Policiais militares do Ceará aceitam proposta e encerram paralisação. [On-line] G1. Publicado em 04 jan. 2012. [Link]


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Referências

ALMEIDA, Juniele R. Identidade Militar e Resistência: Soldados em Greve. Interações, v. 2, n. 2, p. 49-64, 2011. [Link] ___. Tropas em protesto: o ciclo de movimentos reivindicatórios dos policiais militares brasileiros no ano de 1997. Tese (Doutorado – História Social). São Paulo: USP, 2010. [Link]
AMARAL, Pedro. PMs cruzam os braços provocando crises nos estados desde a década de 90. [On-line] O Globo. Publicado 17 fev. 2017. [Link]
BONFIM, Cristiane. Entenda a crise na segurança pública no Ceará. [On-line] UOL Notícias. Publicado em 20 fev. 2020. [Link]
CAVALCANTE, Igor; FIRMO, Érico. Seis anos da greve da PM no Ceará. [On-line] O POVO online. [Link]
CLAUSEWITZ, Carl P. G. von. Da Guerra. Edição em língua portuguesa disponível como texto didático da Escola de Guerra Naval da Marinha do Brasil. Título original em língua alemã: “Vom Kriege”, 1832. [Link]
DE LIMA, Wagner S. A natureza da Polícia Militar: história e ecologia. Dissertação (Mestrado em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental). Juazeiro: Universidade do Estado da Bahia, 2017. [Link]
DUTRA, Giselle. Policiais militares do Ceará aceitam proposta e encerram paralisação. [On-line] G1. Publicado em 04 jan. 2012. [Link]
FOUCAULT, Michel. Seguranca, território, população: curso dado no Collège de France (1977-1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008.
MARREIRO, Flávia. Cid Gomes desafia policiais grevistas e é baleado em Sobral, no Ceará. [On-line] El País. Publicado em 19 fev. 2020. [Link]
MONJARDET, Dominique. O que faz a polícia? São Paulo: Edusp, 2003. [Link]
ROCHA, Guilherme D. Quis custo diet ipsos custodes? Quando entram em greve aqueles que as devem coibir: linhas introdutórias sobre a “greve branca” da polícia militar do espírito santo. Anais do Seminário de Ciências Sociais PGCS-UFES – Vol. 2, 2017. [Link]
WOLOSZYN, André L. Análise – A Greve nas Polícias Militares: Evolução e Perspectivas. [On-line] DefesaNet. Publicado em 10 jan. 2012. [Link]
MARQ, Aurélien. Crise de l’autorité, un péril inquiétant: Violences policières: vers la rupture? [Crise de autoridade, um perigo preocupante violência policial: rumo à ruptura?] Publicado em 22 jan. 2020. [Link]
BOUSCAREL, Benoît. Police: la crise de confiance? Publicado em 31 jul. 2019. [Link]
CHARRIE, Pascal. La crise des gilets jaunes pèse sur le moral de la police. La Croix. Publicado em 27 abr. 2019. [Link]
L’EXPRESS. “Marche de la colère”: les causes du malaise policier. [“Marcha da raiva”: as causas do desconforto policial]. Publicado em 02 out. 2019. [Link]
Audiovisual

“300”, filme longa metragem, produção norteameticana, 2006, Diretor: Zack Snyder. [Link 1] [Link 2]

“Spartacus: Sangue e Areia”, série de TV, produção norteamericana / neozelandesa, 2010. [Link 1] [Link 2]

Sobre o autor

Wagner Soares de Lima

Mestre em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental (UNEB), Especialista em Gestão Pública (UFAL), Graduado em Administração (UFAL) e Segurança Pública (APMSAM/PMAL).  Pós-graduando em Psicologia Junguiana Clínica e graduando em Psicologia. Membro da Segurança Institucional da UFPE e capitão da reserva da Polícia Militar de Alagoas.

Contatos: wagner.soareslima@ufpe.br
Currículo:http://lattes.cnpq.br/9551866737323674

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