Separação ou término de relacionamento como fator de risco psicossocial ao suicídio de profissionais de segurança

A separação conjugal ou o término de um relacionamento amoroso é considerado um dos principais fatores de risco, com força simbólica suficiente para desencadear o cometimento do suicídio ou sua tentativa. Pesquisas sobre o suicídio entre agentes da Segurança Pública demonstram a presença deste motivo combinado a outros na maioria dos casos.

Aqueles que já passaram por esse momento delicado de suas vidas dizem que é como se sua alma tivesse se rasgando em duas partes. Antes o trabalho era uma das principais fontes de estresse, a casa e a família serviam como lugar de refúgio, como espaço de descompressão. Sem o lar ou com ele incompleto, o trabalho precisa aliviar sua carga como fator estressante, para permitir que a pessoa consiga superar. E para isso, é preciso contar com a sensibilidade e a compreensão de colegas e pessoas em cargo de chefia e comando.

Esse é um dos momentos mais delicados da vida de uma pessoa.  Esse não é o momento de escárnio, piadas ou zombaria. Isso não tem graça. Diga não ao bullying! O trabalho pode ser uma fonte de distração necessária para que a mente não fique focada apenas na separação, mas talvez seja preciso diminuir o ritmo, em tudo é preciso ter compreensão.

O cônjuge que parte deixa uma lacuna muito grande na dinâmica do lar. E, nele, também fica um vazio. A dor da separação entre pais e filhos pode ser maior do que entre o casal com problemas. O cônjuge que fica se vê na obrigação de manter tudo como era, sem muitas vezes ter suporte emocional interno para tal.

Junto a dor emocional, vem os primeiros problemas da adaptação a uma nova rotina. De uma hora para outra, gastos ficam dobrados, onde antes se dividiam bens e serviços, agora será necessário ter um adicional financeiro para suportar o desmembramento do núcleo familiar. E um dos problemas é não poder adquirir bens ou buscar soluções definitivas, pois em muitos casos não se sabe se realmente o casal vai se manter separado.

Como colega do policial ou da policial que está passando por isso ofereça acolhimento. Se tiver uma experiência no assunto, compartilhe e mostre como é possível superar essa fase. Não use esse momento de fragilidade para assediar a pessoa, isso é perverso. Não faça julgamentos precipitados, quando se trata de casais há sempre mais de um lado da história. Ao perceber que um companheiro ou companheira de profissão está abatido ou diferente, justamente, nesse momento da vida, não seja invasivo, não vá tratando do assunto a principio. Prefira perguntar se tem alguma coisa que possa ajudar.

Se por algum motivo, o colega escolheu passar esse momento no alojamento da força policial, é porque ele possa está com dificuldades financeiras e de certa forma, para seu psiquismo o quartel, a delegacia, a central, aquele espaço também é naturalmente um de seus lugares de descanso. Portanto, respeite essa escolha, já há muita humilhação e conflito envolvidos em tudo isso, se tiver que pedir para que se retire do alojamento, faça sabendo que outro lugar já foi providenciado.

Caso você não tenha intimidade suficiente, peça que outro colega mais próximo, ou alguém do mesmo sexo, do mesmo círculo hierárquico ou da mesma turma de formação da pessoa em sofrimento converse com ela. Se sinais mais graves forem observados, relate o caso ao Centro de Assistência Psicossocial da sua Corporação ou ao serviço de Psicologia disponível.

Se você é aquela pessoa que está em sofrimento por essa ruptura afetiva, busque ajuda e conforto em pessoas que possam lhe entender. Evite expor publicamente todos os detalhes, mas não deixe de desabafar com quem já passou por isso e que possa lhe orientar. É oportuno, evitar o alojamento da força policial, a não ser por curtos períodos. Tenha cautela nas visitas à residência, que também era sua. Talvez seja importante encontrar seus filhos num ambiente neutro, no qual não tenha motivos para brigar com o cônjuge de quem se está separando. Se você tem consciência que a dor interna está muito grande e parece que a vida não faz mais sentido, é inteligente e recomendável que voluntariamente afaste-se do uso da arma de fogo, guarde-a, entregue-a aos cuidados de um colega ou do setor de armearia.

Outro problemas característico, está no fato de que a atividade na área de segurança muitas vezes exige que o agente represente a vontade da lei e a prerrogativa do Estado, fazendo com que ele não peça, mas imponha algo. Com o passar do tempo isso é absorvido pelo profissional e ele passa a ter ou intensifica mais ainda o que chamamos de rigidez mental. Uma mente rígida está acostumada a impor suas vontades e pode ser útil nos quadros de ruptura da ordem, mas esse aspecto psicossocial costuma advir com a perda de uma capacidade chamada de sensibilidade e empatia.

Assim sendo, o cônjuge que é pego de surpresa pelo pedido de divórcio, sendo ele o profissional de segurança, pode tentar impor a restauração da ordem da forma que não cabe ao mundo das relações privadas. Sendo discutível até mesmo o uso dessa atitude/comportamento nas relações públicas. Isso acarreta, no caso do divórcio, que o sujeito “force uma barra” e simplesmente não aceite a nova condição. A rigidez mental pode, inclusive, ter impedido a esse cônjuge perceber que o relacionamento já vinha desgastado.

E, caso, o cônjuge que não aceite a separação seja um profissional da segurança e esteja sendo insistente de forma agressiva, será necessário a presença de uma representação de profissionais que possam orientá-lo e tenham meios de contê-lo. Portanto, se há alguém do círculo de amizades que possa lhe proteger do acesso de raiva dele, chame. Se não, use o serviço de proteção, ligando 180.

Por outro lado, caso o cônjuge que foi pego se surpresa seja o parceiro ou a parceira do profissional de segurança, cabe a este dificultar o acesso a sua arma de fogo, evitando que num rompante ela não seja usada em ato trágico.

Há, portanto, dois perfis de provocação e reação ao processo de separação, que podem resultar numa ação de dano a si mesmo: o primeiro, é da pessoa que vivenciou um ciclo massante de dor e angústia por não pode suportar uma situação incômoda, essa pessoa sentirá alívio com a separação e como foi ela que por algum motivo segurou a barra por tanto tempo, também pode sentir culpa. O problema está quando o caminho do alívio, ao invés de ser o pedido de separação ou aceitação dele, seja o autoflagelo.

O segundo, é da pessoa que é pega de surpresa, mesmo que tenha dado motivos para isso. Quando a surpresa do pedido é acompanhada da descoberta de um relacionamento extraconjugal isso pode levar a comportamentos destemperados, ainda que ela mesma também tenha tido esse tipo de relacionamento. Podemos chamar de separação abrupta para esse sujeito, quem costuma sentir ressentimento, ódio e rancor.

O terceiro perfil, não é de alguém que costuma se suicidar, é aquele que perpassa pela situação de substituição-ilusória e em meio ao envolvimento intenso com uma terceira pessoa, ela rompe o primeiro relacionamento e assume o novo em substituição. Diz-se ilusório, porque os problemas comuns de relacionamento conjugal provavelmente surgirão com o passar do tempo. Mas as pessoas têm o direito de fazer essa escolha, o que recomendamos é que estando numa situação menos desconfortável internamente falando, já que possui um suporte que lhe recompense a perda da separação, seja aquela pessoa mais prudente em evitar provocação, apesar de que é natural que sinta desprezo, considerando que a busca pela relação extraconjugal tenha partido da não satisfação pessoal com algum ponto do relacionamento original.

Sabendo de todas essas coisas, o profissional de segurança quer seja o que passou pelo angustiante processo de separação massante ou aquele que é surpreendido pela separação abrupta pode e deve parar, refletir nas consequências de seus atos repentinos, buscar ajuda, está em meio a quem possa lhe entender e ajudar.

Essas condições acima descritas, correlacionadas com a rigidez mental, o fácil acesso a arma de fogo, o bullying no ambiente de trabalho e os efeitos danosos da “cultura da honra” (tipicamente do universo masculino), podem ser o combustível propiciador para o suicídio ou o homicídio seguido de suicídio tanto por parte do profissional de segurança, como de seu parceiro ou parceira.


Não, você não é fraco.
Não, você não está sozinho.
Não é nenhuma vergonha pedir ajuda.

Se precisar de apoio emocional, a qualquer hora do dia ou da noite, estando no Brasil, LIGUE 188 e converse com um dos colaboradores do CVV.

Você precisa de ajuda?
LIGUE 188


Saúde Mental & Segurança Pública
Reduzindo o risco psicossocial do suicídio policial é uma campanha do Blog CidadãoSSP: http://www.cidadaossp.com / @cidadaossp

Acompanhe esta campanha no Instagram

O público-alvo da campanha são policiais, peritos, bombeiros, agentes socioeducativos, agentes penitenciários e guardas; seus familiares, profissionais de saúde e assistência, assim como gestores das instituições. O conteúdo aqui empregado pode também servir para uso entre profissionais de segurança privada, agentes de segurança institucional e militares das forças armadas.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.