Quais são as lições de Taiwan para o resto do mundo frente a ameaça do COVID-19?

por José Humberto Silva Filho (*)

Como a Ilha de 23 milhões de habitantes e localizada a menos de 200 KM da China, até o dia 10 de março, tinha contabilizado apenas 45 casos de infectados e  1 uma morte em decorrência do COVID-19? 

Essa situação é explorada pelo  pesquisador Jason Wang, da Stanford Helth Policy ,em um artigo publicado no Jornal of American Medical Association, em co-autoria comChun Y. Ng e Robert H. Brook. 

Os autores argumentam que a boa gestão da crise em Taiwan se deve a efetivação de um plano muito bem coordenado que se  estrutura em 124 pontos, que dentre eles estão a proibição de viagens, quarentenas, etapas de vigilância, distanciamento social, e sobretudo, grande bancos de dados, novas tecnologias e uma grande capacidade de “testar”  a sua população.  

Entrevistado pelo repórter Kelsey Piper, do site vox.com, Jason Wang afirma que o País soube tirar lições da epidemia de SARS que se desdobrou em 2004, montando um centro de comando, o Centro Nacional de Comando de Saúde, capaz de integrar um conjunto amplo de agências. 

“A coisa mais importante sobre gerenciamento de crises é se preparar para a próxima crise… É um centro de comando 24/7. Há salas de mídia, salas de processamento de dados capaz de integrar informações de diversas localidades. Tem lugar pra dormir e descansar. Sem falar no conjunto múltiplo de  especialistas com capacidade de analisar as informações …”

Sobre as primeiras reações de Taiwan  frente os primeiros relatos de contaminação na China , Wang relata que as autoridades sanitárias procuraram intervir nos aviões vindo da Província de Wuhan, entrando nos aviões e verificando as pessoas quanto a manifestação de sintomas. 

“Eles estavam testando em 31 de dezembro. Assim que souberam de casos suspeitos de um novo tipo de vírus   se perguntaram logo se era SARS novamente. Eles estavam nervosos. Então foram proativos. Eu acho que é assim que devemos tratar esse tipo epidemia. Não há problema em ser excessivamente cauteloso.”

Perguntado sobre a tática usada  pelo governo para não causar pânico nos cidadão da Ilha, Wang disse que : “ O governo estabeleceu uma boa comunicação com a população através da imprensa, organizando coletivas diárias, e muitas vezes mais de uma por dia. Deixando claro que sabiam a origem dos infectados, todos tinham vindo de Wuhan. Eles tiveram cerca de 10 casos antes de começar a contaminação comunitária, onde os viajantes passavam o vírus para os seus cuidadores. Eles sabiam quais eram os casos domésticos e quais eram os casos de contaminação externa. Você pode rastrear todo mundo…”

Sobre as particularidades da Proliferação nos EUA e maneira como as autoridades estão reagindo  o pesquisador diz que existem vantagens e desvantagens que precisam ser levada em consideração, a exemplo da densidade populacional ser maior que dos países asiáticos  na maioria dos estados norte-americanos. Por outro lado, Wang acha que nem toda capacidade de reação está sendo usada pelo governo. 

“Temos grandes empresas de tecnologia que realmente podem fazer muito, certo? Devemos reuni-las. Reúna os governadores, peça as agencias do governo federal que trabalhem entre si e tente encontrar maneiras inovadoras de pensar sobre o problema. Temos as pessoas mais inteligentes aqui nos EUA, porque elas vêm de todos os lugares . Mas, no momento, esses recursos são inexplorados. Eles não estão trabalhando juntos. O governo federal e as agências precisam trabalhar de forma mais integrada. 

Se você conseguir reunir os dados de todos os estados e as agências do governo federal estiverem trabalhando juntas, as grandes empresas de tecnologia podem ajudar a prever os próximos pontos de contaminação. Então é isso que se deve fazer – deve-se tentar prever as zonas quentes, porque os recursos são limitados, mesmo em um país grande. 

Perguntado  se existe algo específico  na resposta de Taiwan que os EUA deveriam estar fazendo melhor, Wang diz que precisamos educar melhor as pessoas, melhorar a comunicação, porque a maioria das pessoas não têm ideais do que realmente está acontecendo nas suas localidades. 

“ Por exemplo, escreva para essas pessoas e diga: “ houve três casos perto de onde você mora” . Isso é possível, certo ? Todos nós temos telefone, certo? Se houver algum roubo, incêndio ou algo assim, recebo uma mensagem recebo alertas e tudo mais. Bem, porque não criar um sistema de alerta como esse em que você diz : “Olha, houve um ponto de quente nesse shopping . Tente não ir lá”. Então todos que estiverem perto do shopping receberiam essa mensagem.” 

Kelsey Piper acrescentou: “ então as pessoas  que estavam no shopping que comecem a apresentar sintomas   saberão”. 

Podemos concluir , de acordo com a análise do Pesquisador Jason Wang,  que o domínio de Taiwan sobre a epidemia do COVID-19 se deve basicamente a sua capacidade de se antecipar de maneira coordenada aos eventos causais, graças a seu arranjo institucional amadurecido ao longo da história.      


Referências

Piper, Kelsey. Taiwan has millions of visitors from China and only 45 coronavirus cases: here’s how. Aggressive measures starting in December saved Taiwan. Can we learn from them?. [On-line] Vox. Publicado em 10 mar. 2020. Disponível em https://www.vox.com/future-perfect/2020/3/10/21171722/taiwan-coronavirus-china-social-distancing-quarantine

Wang CJ, Ng CY, Brook RH. Response to COVID-19 in Taiwan: Big Data Analytics, New Technology, and Proactive Testing. JAMA. Published online March 03, 2020. doi:10.1001/jama.2020.3151. Disponível em https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2762689


Sobre o autor

José Humberto Silva Filho

Economista e mestre em Sociologia pela UFAL

Email: 19.humberto@gmail.com
Lattes: http://lattes.cnpq.br/5734015512413700

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