A pandemia tem mostrado gestores públicos atônitos e apavorados, simplesmente sem saber o que fazer


Enquanto ficar parado ou fazer pouco caso pode nos levar a um caos por falta de ações, o medo diante de uma desordem completa pode levar as autoridades a endurecer as ações. Esse endurecimento pode vir depois do que era preciso ser feito e não foi, perdendo o controle e assim o faz caso queira retoma-lo. Por isso vamos falar de ética, estratégia e a pandemia do novo coronavírus. E vamos falar disso focando entre a segurança e a gestão pública em momentos de crise humanitária.

Bem, até agora a crise é, digamos, logística. Não se tem o que precisa para resolver porque não se preparou para isso, talvez nem pensou que realmente fosse ocorrer. Mas ela poderá chegar a ser uma crise humanitária, com mortes, desemprego e desabastecimento de itens essenciais. Será que chegaremos a tudo isso?

Você pode dizer, em bom português: eu não entendi foi nada, o que é que está acontecendo e o que eu devo fazer? Permita-me falar com você: profissional da Segurança Pública ou gestor público com poder de decisão sobre qualquer órgão que possa exercer a força, o controle e a articulação neste momento de crise.

Crises, por si só, são excelentes oportunidades de aprendizagem e teste de suas capacidades, quando minimamente nos preparamos para isso [1].

Creio que não seja o caso da pandemia do novo coronavírus de 2020, definitivamente o Ocidente, ou seja, os países da Europa e os das Américas não estavam preparados [2].

Este texto tem muita orientação em linguagem simples, talvez você queira ler tudo, talvez só o que lhe interessa, por isso aqui embaixo está lista do conteúdo:

  • O que está acontecendo, parece algo irreal…
  • Do que se trata e como se resolve?
  • Os casos de sucesso na Ásia
  • Tem outra forma de fazer?
  • Buscar informação, planejar o que fazer e tomar decisões
  • Conversando especificamente com o pessoal de Segurança
  • Lidando com pessoas e problemas humanos
  • Por que não libera tudo e protege só os mais fracos para essa doença?
  • O problema nosso não é o vírus, mas questões sociais mal resolvidas
  • Aplicando a sabedoria

O que está acontecendo, parece algo irreal…

Vamos sair desta crise com muitos aprendizados, mas talvez isso ocorra com um alto preço de perdas econômicas, saúde mental de muitos e, infelizmente, de vidas de outros tantos. Perdas, já estão tendo; cabe a você, minimizar os danos, onde quer que você esteja, seja qual for sua jurisdição.

Portanto, sem preparo, ainda que se trate de algo que você sabe, ou está ouvindo dizer, que poderia ter sido resolvido de forma menos amarga, parece que não é caso do Brasil e de outras nações surpreendidas com suas “defesas imunológicas” despreparadas.

Existem casos de sucesso na contenção da disseminação da epidemia, mas as nações que assim conseguiram, já haviam passado por isso antes e tiveram que aprender, errando. Para citar exemplos: Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura [3]. Parece que quem não aprendeu com os próprios erros, talvez tenha sido, a China, que já tinha sido o foco de problema parecido mais de uma vez no passado recente. Apesar, de ter “resolvido” com certa eficácia o foco do problema atual.

Eu sei que você está sendo bombardeado com informações de todo tipo. Alguns acusam o governo chinês de ter causado uma crise, propositalmente, de saúde pública mundial com efeitos na economia que se beneficiar. E, em contrapartida, o governo chinês e do Irã acusaram que fosse um ataque biológico dos Estados Unidos [4].

Já, as evidências científicas apontam mais apropriadamente para mais um caso de recombinação genética, na qual um vírus de outro animal se adapta de tal forma a explorar o corpo humano como hospedeiro [5], [6].

Bem, a discussão se foi uma arma biológica ou um capricho da Natureza, lembrando que o Planeta ainda é mais dela do que nosso, não vai fazer muita diferença agora. Talvez esse seja um debate necessário para o futuro, mas agora é preciso que você não gaste tempo, nem energia nisso. Concentre-se em entender por si mesmo e tomar atitudes, ficar pensando de quem foi a culpa não vai levar a nada.


Do que se trata e como se resolve?

Em resumo, a COVID-19 trata-se de uma síndrome respiratória, causada por um vírus novo nos seres humanos, que pode chegar a quadros severos de pneumonia e levar a morte, mas para a maioria das pessoas infectadas vai parecer ser apenas uma gripe. E, então, por que todo esse estardalhaço? Porque ainda não tem tratamento, nem tem vacina [7].

Quem tem a reação leve, segue sua vida. Mas quem tem a reação grave, precisa ir para um leito de UTI em um hospital. Aí está o problema, leitos de hospital já são muitos disputados por problemas já conhecidos do cotidiano, agora você imagina: muita gente precisando de cuidados intensivos, todos ao mesmo tempo [8].

Na verdade, nosso real problema não é um novo vírus, provavelmente oriundo de morcegos (ou de um tipo de tatu da Ásia), é a falta de leitos de UTI, com ventiladores de respiração mecânica nos hospitais. Outro problema também, é que desacostumados a esse tipo de ameaça, nossos próprios costumes de vida normal, ajudam a esse tipo de vírus a se espalhar bem rápido.

O país que tem número de vagas em UTI suficiente e kit de teste para saber quem está infectado, o povo continua a vida normal, ou reduz um pouco para não alastrar de vez. Isso é mais ou menos, o que está dando certo, até agora na Alemanha, não se sabe se vai aguentar assim até o fim [9]. Mas quem tem um sistema de saúde que não dá conta da sobrecarga repentina, pára tudo, para não ver um monte de gente morrendo, sabendo que podiam viver se tivesse vaga no hospital.


Os casos de sucesso na Ásia

E os países que são exemplos de sucesso na Ásia, vizinhos da China, eles pararam tudo? Não, eles vigiaram os passos de cada pessoa suspeita usando tecnologia de rastreamento pelo celular. Controlaram as portas de entrada, como aeroportos, mediram a temperatura de quem chegava [10], [11].

Distribuíram máscaras para todo mundo, eles tinham equipes já treinadas para vigiar pessoas, desinfectar lugares e levar pessoas doentes e trata-las sem que o pessoal de saúde e segurança se contaminassem para fazer isso.

Colocaram polícia para ir de porta em porta, apenas das pessoas que provavelmente tinham sido infectadas e tinham testes suficientes para saber se a pessoa com sintomas estava apenas com gripe comum ou se era fruto do novo coronavírus.

E por que a gente não faz igual? Porque esse tipo de preparo leva entre 3 a 5 anos e custa um bom dinheiro. A população ajudou porque já tinha visto o estrago que acontece, quando não se está preparado e a cultura das sociedades asiáticas é diferente mesmo, eles tendem a obedecer regras do coletivo. Então não tem mais jeito, a forma deles fazerem é para quando o vírus não se espalha. Uma vez espalhado, as estratégias são outras.


Tem outra forma de fazer?

E aí, existe dois casos basicamente, quando você tem um foco e quando o vírus chega por várias portas de entrada diferente. Quando você tem um epicentro ou uma zona vermelha, de onde parte a contaminação, você isola esse foco, põe ele de quarentena. Manda para ele um reforço de recursos materiais e de pessoal, até que as coisas normalizem. E, talvez, vigie e siga os casos que, porventura, tenham escapado ao isolamento. Aí, você começa a fazer um pente fino, caçando os casos que ainda insistem em surgir.

Foi mais ou menos assim que a China fez para dar conta do problema, que ainda não terminou. Ela isolou cidades, inclusive uma metrópole do tamanho de São Paulo, justamente de onde tudo começou, na região central do país, uma cidade chamada Wuhan.

A Itália também tinha um foco e eles também isolaram a região e por que não deu certo? Porque eles tiveram receio de isolar a região toda, para não parar a economia. Cidadizinha pequena eles fecharam com pouco constrangimento. Mas cidade rica eles esperaram aparecer os primeiros casos, aí já foi tarde. Quem era dessa região levou o vírus para o restante do país. Eles tiveram outros problemas também, eles têm uma população muito velha e são, justamente, os idosos que são mais afetados pela COVID-19.

Outra coisa é que doença respiratória desse tipo, não ajuda. Aliás, qual doença que ajuda!? Esse tipo de doença é assim: você é infectado, já começa a transmitir o vírus e só fica doente com os sintomas aparentes depois, que já passou para algumas pessoas. Na verdade, talvez a pessoa nem fique doente e passe para os outros sem saber que estava infectado. Como saberíamos? Se tivesse teste para todo mundo que fosse suspeito.

Qual é a última estratégia? Não dá nem para chamar de estratégia, são medidas a serem tomadas para minimizar o estrago depois que você perdeu o controle. Agora é “trocar o pneu, com o carro andando”, ou melhor, tentar fazer o carro reduzir, para salvar quem está dentro do carro e quem está fazendo a troca. E, justamente, você é um dos que estarão no serviço de linha de frente.


Buscar informação, planejar o que fazer e tomar decisões

Então, o que precisa ser feito agora? Tomar decisões e seguir planos de ação. Mas você pode me dizer: não tenho plano de ação para isso, nunca paramos para pensar nesse tipo de situação. Se nunca pensou, vai ter que pensar agora. Ou então, parar e ouvir quem no mínimo fazia ideia, já tinha se preparado para algo parecido, mas você nunca deu importância. Ou ouvir quem está procurando se informar.

Uma das maneiras mais eficientes de procurar o que fazer, é saber como outros gestores da mesma pasta que você, de outros lugares e outras épocas fizeram. Talvez o exemplo que você encontre seja do que não fazer, ou do que deu certo e pode ser adaptado e copiado.

Você deve ter o receio ou até mesmo o medo natural por si mesmo e pela sua família. Isso é mais acentuado entre os profissionais da Saúde; mas os da Segurança e todos aqueles que estão à frente dos atos de interesse público também sentem isso.

É preciso que você se acalme, o medo distorce a realidade e você não consegue tomar boas decisões, se é que tome alguma. Temos visto autoridades e gestores atônitos, alguns apavorados. Um ótimo momento para oportunismo político, faça um favor a si mesmo e para as pessoas que dependem de você, rejeite esse tipo de bajulação, isso é bom na campanha eleitoral, agora não é hora para isso.

Prefira os técnicos, aqueles que estudaram para esse assunto, ou que tem capacidade de rapidamente aprender. Se você escolheu alguém para um cargo, por questão política, não o despreze, mas mande chamar o técnico que lida direto com a situação.

Para poder ter os técnicos de cada área juntos pensando em soluções, monte um gabinete de crise. No qual, alguns podem participar por videoconferência usando aplicativos da internet. Monte uma sala, com telefone, computador e uma tela grande de televisão ou datashow. Pode ser onde já é a sede do governo ou do órgão, mas pode ser numa escola, num teatro ou num cinema.

Se você é o gestor ou servidor abaixo desse que está parado sem saber o que fazer. Então, com todo o respeito possível, sem desmerecer o seu chefe, tome a frente e mostre serviço pela atitude e pelo conhecimento.

Se existe um grupo entre você e a autoridade, espere o momento certo, continue lendo e se informando, trace um plano para a sua área e quando puder chamar a autoridade num canto separado, faça ela cair na real, sem alarmismo e pensamento pequeno, junte sua vontade de ajudar com um mínimo de conhecimento do que está acontecendo.

Talvez seja necessário que vice-prefeito, secretário de saúde, subcomandante, membro do estado maior, chefe de gabinete tome a frente e faça às vezes. Isso é normal e faz parte da flexibilidade em casos emergenciais. Assim que o chefe de verdade voltar à realidade, que pegar o ritmo da nova situação, devolva o bastão para ele.

Ainda não chegamos a esse ponto, mas logo, algumas funções ficarão vagas porque, ainda que não seja por morte, mas aquela autoridade pode ficar doente e ter que ficar em casa ou internado no hospital. Por isso, é preciso ter um substituto sabendo o que fazer, para não ser pego de surpresa.


Manifestantes que protestam contra a realização da Copa do Mundo entraram em confronto com a Polícia Militar do DF ao tentar se aproximar do Estádio Nacional de Brasília (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Conversando especificamente com o pessoal de Segurança

Agora, vamos falar especificamente com os profissionais que, se preciso, poderão usar da força. Isso inclui aqueles que podem usar da força da caneta, multando, interditando, confiscando ou aplicando multas. Assim como usando da força física, obrigando a ficar em um lugar, levando pessoas contra a vontade (para o bem delas e dos outros), prendendo e, infelizmente, chegando a agredir ou matar.

Você acha que eu exagerei? Então deixa isso virar um caos e você vai ver o que esse tipo de situação fora do controle é capaz de fazer…

Quando incluímos tanto a força física como a da caneta, você deve perceber que estamos falando de Segurança de uma forma ampla.

Isso inclui policiais, guardas municipais, agentes do sistema penitenciário e socioeducativo, militares mobilizados na garantia da lei e da ordem, agentes de trânsito, agentes da vigilância sanitária e epidemiológica, bombeiros, socorristas, agentes da segurança institucional, fiscais de renda e tributos, fiscais ambientais, todo tipo de fiscalização, vigias da educação e da saúde, inclui até mesmo os vigilantes da empresa privada que prestam serviço no seu órgão.

Entenda, isso inclui juízes, promotores e conselheiros tutelares. Em emergência epidemiológica, médicos e gestores de saúde são considerados autoridades sanitária, com poder de decidir sobre isolamento, obrigar que se faça testes, internamento contra a vontade e outras coisas parecidas.

Todos esses que citamos, tem seu próprio pessoal para cuidar, precisam assessorar autoridades, tem cada um certo poder de decisão na sua área e a maioria lida com a população e terão que saber tratar as pessoas, fazer cumprir as medidas necessária e proteger a si mesmo, tudo ao mesmo tempo.

Entre todos esses, há uma classe a qual queremos que você tenha especial atenção. Nesse tipo de momento, quando eles assumem, não há muito espaço para tomar decisões próprias. Se uma equipe das Forças Armadas assumir o comando da sua região ou da sua instituição, é hora de entender qual é seu papel no plano já traçado e cooperar, ganhando confiança do comandante próximo, para depois se caso ocorrer algum problema você explicar sua opinião.

Mas em vários lugares e em vários assuntos os militares federais não terão tempo nem gente para assumir. Se é que vamos chegar a isso tudo. Então, tem lugar que seguir as diretrizes é o melhor a fazer, mas há lugares que só tem você mesmo, nessa situação com toda prudência do mundo, assuma e faça a sua parte.

É preciso ter cautela com uma lógica geral da Segurança: o pensamento de guerra. De que vamos combater um inimigo, até certo ponto isso é bom, porque anima as pessoas a terem força e coragem. Mas depois de um limite, isso pode gerar excessos e arbitrariedades.


Lidando com pessoas e problemas humanos

Entenda, agora há uma mudança de prioridade, se pensar em um combate, não pense que vai exterminar um inimigo. Para dizer, a verdade, o vírus nem um inimigo em si, o “bichinho” tava lá quieto no lugar dele e faz parte dos ciclos da natureza, surgirem doenças que controlam as populações dos animais. Não sei se você lembra, o ser humano é um animal. Mas um pouco diferente, ele pensa e sente. Por isso: quando for tomar atitudes, use o pensamento e o sentimento.

Só sentimento você vai se comover e se perturbar, não vai adiantar nada. Só pensamento, pode ser que você saiba o que fazer, mas no como fazer esqueça que ali na sua frente tem pessoas.

Você vai enfrentar oportunismo criminoso tanto de golpes na Internet, como de saques e roubos. Analise, se a situação tiver controlada na questão da doença, foque nos crimes, se a questão tiver fora do controle sobre a doença, foque nas ações de controle da epidemia. Se puder dividir seu grupo para cada tipo de situação, melhor. Nesse caso, saiba dividir pela competência dos profissionais e entregue os equipamentos necessários para cada tipo de missão.

Você vai se deparar com apadrinhamento político, no qual, uma regra para todos está sendo desobedecida por quem acha que pode fazê-lo por ser amigo de uma autoridade. Analise a situação e veja se isso está atrapalhando e verdade a medidas de solução. Se tiver e não tiver poder para fazer cumprir a ordem dada, entregue a situação a quem possa, normalmente, uma autoridade do poder da caneta.

Lembre-se você está lidando com uma população desinformada, que nunca sentiu na pele esse tipo de situação e que precisa sair de casa para ganhar o sustento. A classe média está em casa, não é a mesma coisa da classe mais pobre, que só tem dinheiro quando sai para trabalhar.

Preciso que você confie nas palavras que vamos te dizer agora: as próprias pessoas que você deverá proteger irão se voltar contra você e sua equipe. Vocês precisarão ter muita prudência, usar da técnica, embasamento legal, jogo de cintura e bom senso.

Elas não têm a noção real da gravidade do problema. Elas pensam: “bem, eu não estou doente, não tem ninguém doente aqui, então vamos viver normalmente e curtir”. Ao bater numa porta, para impor a medida de isolamento ou de condução coercitiva, lembre-se do que você é: humano e, assim como você, pessoa envolvida também é: humana.

Você, além disso tudo vai sentir o impacto dos ritmos diferentes entre sua atividade corrida e sua família que está de quarentena, então tenha calma para não estragar tudo em casa e perder, justamente, o suporte emocional do qual precisava para aguentar essa barra.

Voltando aos assuntos do trabalho. Então, antes de usar da força bruta, converse. Dialogue, nem que tenha que ser com voz alta, mas use de sabedoria. Haverá momento em que a força será necessária, esteja paramentado, com equipamento de proteção e use da técnica adequada.

A cada ordem de confisco, cumpra-a, mas seja no mínimo educado com os funcionários. Analise a legalidade da ordem, se perceber que é abusiva, não importa de quem seja, exija que seja por escrito.

Ordens como essa são possíveis, mas elas não dizem como cumprir, então tente primeiro usar do diálogo, dê prazo, espere que tenha tempo de se arrumar.

Se a Polícia partir para cumprir as primeiras ordens de qualquer forma, vai gerar um mal estar tão grande, que a população vai se revoltar e aí vai se perder o controle e mais força e autoritarismo será necessário.

O ideial é que você tivesse tecnologia como: drone, câmera de espectro infravermelho e medidores de temperatura corporal. Talvez, ainda tenha tempo de conseguir alguma coisa assim.


Por que não libera tudo e protege só os mais fracos para essa doença?

E que tal liberar tudo e fazer apenas medidas cirúrgicas, diretas no ponto do problema da doença? Seria ótimo, mas só pode fazer isso quem tem leito de UTI suficiente, quem mapeou os casos suspeitos a linha de transmissão e possui meio eletrônicos para montar um painel de monitoramento e rastreamento de celular ou, até mesmo, de tornozeleira eletrônica.

Ou seja: isolar só quem teve contato e é suspeito e quem é vulnerável e liberar o restante da população, é possível. Sim, e provavelmente é o que vamos fazer lá na frente, porque a quarentena não vai poder durar para sempre e doença ainda vai continuar afetando as pessoas.

Existem denúncias sobre medidas “draconianas” ou desumanas tomadas pelo governo chinês, não podemos dizer se são verdadeiras. Mas não é improvável. E fique atento, se as coisas saírem do controle, pode ser que sejam tomadas no Brasil e essa situação que estamos tentando impedir que venha a acontecer e se o momento chegar, que você esteja com a cabeça no lugar para saber o que é preciso fazer e ao que você deve se opor a fazer.

Espero que isso seja uma previsão furada, não desejo ser profeta do caos. O Brasil tinha tudo para sair com mínimo dano dessa crise. Fomos os primeiros a avisar a Organização Mundial de Saúde que estava correndo algo de errado na China. Mas mesmo assim durante os meses de janeiro e fevereiros, não nos preparamos como devíamos. Mesmo as dificuldades com a Saúde Pública, parece que teremos tempo de resolver, porque estamos vendo o que está acontecendo com a Espanha e a Itália.


Rio de Janeiro – Moradores do Complexo da Maré vivem expectativa de mudanças sociais. Conjunto de barracos à beira de um canal conhecido como favelinha da Mc Laren (Fernando Frazão/Agência Brasil)

O problema nosso não é o vírus, mas questões sociais mal resolvidas

Especialistas dizem que o fizermos será provavelmente o espelho para parte da África. Esses mesmos especialistas dizem que estão preocupados com nossos presídios e as áreas urbanas em que as pessoas vivem sem saneamento básico e de forma aglomerada.

E nossa preocupação é que você fique de frente com a decisão e as medidas a serem tomadas quanto o que fazer quando a parcela mais pobre do população brasileira for atingida. Desculpe ser pessimista, mas há um cenário possível com enterros de indigentes e valas comuns, campo de concentração, isolamento compulsório sem assistência igualando-se a prisão domiciliar com sistema de solitária, bloqueio total de comunidades de baixa renda (favelas, grota, guetos, vilas, aldeias e quilombos, aglomerados etc).

Foi por esse cenário que dizemos, talvez ocorra uma crise humanitária. E se ocorrer, não será “culpa” do vírus, os problemas sociais já estavam aí, antes dele chegar.

Como vimos antes, uma estratégia acertada é conter isolando o foco do problema. Mas no nosso caso pode ocorrer, o contrário, com o problema generalizado, quem não tem o problema ou tem ele mais controlado pode querer se isolar. Tem cidade que já fez isso. Tem governador de Estado que determinou que veículos de outro Estado não pudessem entrar.

Não vou dizer que não faça isso. Talvez fazer isso seja a maneira de salvar os seus, mas sei que isso vai gerar embates entre forças de segurança do mesmo país. Cuidado com esse tipo de ação.

Você precisa lembrar que, talvez, quem está mandando você fazer coisas arbitrárias hoje, faz parte do mesmo grupo que, não se preparou, cortou verbas da Saúde e nunca se preocupou em equipar e treinar sua instituição. E agora está mandando você ir na frente, espero, que você tenha a cabeça no lugar, e diga: não é bem assim, vou fazer o que tem que ser feito, mas com sabedoria.


Aplicando a sabedoria

Essa mudança de prioridade, mudando o foco do só no crime, para se voltar a ações de proteção da comunidade, fará com que você se disponha a fazer coisas diferentes do comum da área de segurança mais combativa.

Talvez precise ajudar idosos, com coisas básicas como levar comida. Pode precisar acompanhar agentes de saúde e ter que vê eles agindo como a autoridade principal, saiba escutar e acompanhar. Não se meta no trabalho que é deles, mas também ajude quando vê que estão sem saber o que fazer. Eles sabem coisas que você não sabe fazer e você tem costume com certas atitudes que eles estão desacostumados.

Grupos especializados de forças de segurança precisam rapidamente unir técnica de imobilização com precauções de biossegurança, justamente para acompanhar o pessoal de saúde ou fazer cumprir ordens de controle sanitário.

Você pode pensar que é um absurdo o crime e a milícia dizer que vão fazer o que, nós do governo, não somos capazes de fazer. Vai doer o que vou dizer, mas isso é em parte verdade mesmo. Não era para ser assim, mas com certeza pelos laços da dor, comunidades vão buscar suas próprias soluções.

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[1] Fernandes, Thais. Oportunidades em meio a crise. 09 mar. 2015. [Link]

[2] Han, Byung-Chul. O coronavírus de hoje e o mundo de amanhã, segundo o filósofo Byung-Chul Han. El País, 22 mar. 2020.[Link]


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[3] Paiva, Vitor. Como Singapura, Taiwan, Coréia do Sul e Hong Kong conseguiram controlar o coronavírus. Hypeness, mar. 2020. [Link]

[4] Coronavírus cria novas tensões entre EUA e China. Veja, 17 mar. 2020. [Link]

[5] Novo coronavírus não é uma arma biológica criada em laboratório, provam cientistas. Zap, 19 mar. 2020. [Link]

[6] Andersen, K.G., Rambaut, A., Lipkin, W.I. et al. The proximal origin of SARS-CoV-2. Nat Med (2020). https://doi.org/10.1038/s41591-020-0820-9. [Link]

[7] Ministério da Saúde – Brasil. O que é coronavírus? (COVID-19). [Link]

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[8] SUS corre risco de colapso. A veloz expansão do coronavírus exige ação rápida e eficaz do poder público e da rede privada, ameaçando hospitais com superlotação e deve sobrecarregar os leitos disponíveis. IstoÉ, 20 mar. 2020. [Link]

[9] Valencia, Alejandro Millán. Coronavírus: por que a Alemanha tem uma taxa de mortalidade tão baixa.
BBC News Mundo, 23 mar. 2020. [Link]

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[10] Wang CJ, Ng CY, Brook RH. Resposta ao COVID-19 em Taiwan –  Big Data Analytics, novas tecnologias e testes proativos
JAMA. Published online March 03, 2020. [Link]

[11] Coronavírus: Ásia adota tecnologias controversas para vigiar população em quarentena. O Globo, 20 mar. 2020. [Link]


Espero que esse texto lhe ajude, em nosso site tem mais sugestões e informações que podem lhe ser úteis, no Especial Coronavírus. Caso queira nos contactar, use este link.

Estamos atualizando os links das referências para que você tenha acesso às fontes que embasaram nossa análise.

Sobre o autor

Wagner Soares de Lima

Mestre em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental (UNEB), Especialista em Gestão Pública (UFAL), Graduado em Administração (UFAL) e Segurança Pública (APMSAM/PMAL).  Pós-graduando em Psicologia Junguiana Clínica e graduando em Psicologia. Membro da Segurança Institucional da UFPE e capitão da reserva da Polícia Militar de Alagoas.

Contatos: wagner.soareslima@ufpe.br
Currículo:http://lattes.cnpq.br/9551866737323674

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