Prevenção versus imediatismo: na Saúde e na Segurança Pública

Como médica e oficial de polícia, consigo ver hoje os problemas que a Saúde Pública enfrenta com essa pandemia são os mesmos problemas que, há algum tempo, tem se tentado mudar. E, em resumo, no que eles podem ser traduzidos: a emergência da mudança da visão biomédica para uma visão holística.


O imediatismo da Saúde

O primeiro é mudar uma medicina curativa para uma preventiva. Pois é possível observar o quanto é difícil aplicar as medidas de prevenção à propagação do vírus, como também os sistemas de saúde não se planejaram apesar de ter ciência que esse tipo de pandemia poderia acontecer.


A segunda é o imediatismo. A procura de uma pílula mágica para todas as enfermidades, o que em suma, é uma ilusão. É preciso entender cada processo de adoecimento do corpo e que sua cura também é decorrente de vários fatores e que nem sempre é possível alcançar. Às vezes, o que se pode conseguir é apenas o controle e manter o bem estar será aquilo que, na medida do possível, será feito por muito tempo. Precisamos abrir a mente para os cuidados paliativos, mas isso demanda uma atitude de prontidão em cuidado, que irá exigir dedicação prolongada.

E o terceiro, é a “medicalização” e a automedicação. Que é um pouco mais do segundo tópico. A busca incessante pela cura mágica transforma a medicina em simples fórmulas químicas. Esquecendo do cuidado, do toque, do ser humano.

E tudo isso repercute na sociedade e nos profissionais de saúde. Os quais adoecem por não aguentar a sobrecarga e a falta de sentindo nessa maneira biomédica de tratar a saúde.


A repressão na Segurança

Em analogia, também me refiro a Segurança Pública. Que insiste em agir sempre repressivamente apesar que vários exemplos demostram a melhor eficiência e efetividade da a prevenção. Sendo ela menos danosa a sociedade e a própria saúde do policial, quando não lhe trazendo menos consequências indesejáveis em termos de responsabilização jurídica.

Buscar uma fórmula mágica, também é um problema da Segurança. Sempre com estratégias de curto prazo e imediatistas, que não pensam ao longo prazo as consequências dessas ações que sempre são focadas na repressão.

Além disso, na Segurança Pública, tudo é resumido em viatura, armas e coletes, esquecendo da dinâmica social, da comunicação mais afetuosa e do policial como ser humano, que não é “superior ao tempo”, é fruto do Tempo. Por fim, esse mesmo policial acaba adoecendo com essa forma imediatista e repressiva que permeia seu campo de atuação.

Espero que essa pandemia sirva para que nos tornemos mais HUMANOS
(e inteligentemente mais preventivos).


Sobre a autora

Patricia Soares de Lima

Capitã da Polícia Militar de Alagoas. Médica pela UFAL. Especialista em Políticas e Gestão em Segurança Pública e com MBA em Gerenciamento de Projetos. Pesquisadora do Grupo de Estudos Gênero e Educação Médica – Medicina/UFAL. Membro do Grupo de Estudos Estratégicos em Segurança Pública da Polícia Militar de Alagoas. Atuou em unidades de policiamento especializado, tais como Patrulhamento Tático (BPRp) e Operações Especiais (Bope), assim como possui experiência de campo em Inteligência Policial.

Contatos: pslima02@gmail.com
Currículo: http://lattes.cnpq.br/0388660055301429


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